Memória em Trânsito | Pesquisa-ação sobre memórias negras, indígenas e periféricas
Memória em Trânsito pesquisa-ação
Pesquisa-ação em movimento desde 2013

memória em trânsito

A memória não é coisa parada. Ela anda, atravessa gente, muda de mãos e continua viva.

O que é

Uma pesquisa que registra memória enquanto ela ainda está sendo vivida.

O Memória em Trânsito documenta, guarda e devolve para o mundo as histórias e os modos de vida de comunidades negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas. A gente escuta, grava, fotografa, mapeia e constrói junto com quem viveu a história.

Nada disso vira só arquivo parado. Cada entrevista vira imagem, som, mapa, exposição, protótipo. É pesquisa que sai do papel e volta para o território de onde saiu, em formato que a comunidade reconhece como seu.

É um trabalho interdisciplinar: reúne artistas, criadores, pesquisadores e coletivos em torno de uma ideia simples e teimosa, a de que reconhecer essas memórias é parte de construir um país menos desigual.

Dessa pesquisa já saíram doze obras — entre elas a exposição Mares Nunca Navegados, o curta documental Memórias Apagadas na Terra da Liberdade, uma música criada com o grupo Brincar Elas e, em 2025, o filme Ilha da Exclusão, desdobramento direto da investigação. Somam-se a isso um episódio de podcast feito com o História Preta, ações formativas e um mapeamento de iniciativas, lugares e pessoas negras da Baixada Santista.

2013
ano em que a pesquisa começou, na Baixada Santista
12
obras produzidas: exposição, filmes, trípticos, ilustrações, protótipos e música
1
episódio de podcast, produzido com o História Preta
1
mapeamento de iniciativas, lugares e pessoas negras da Baixada Santista
+
ações formativas com coletivos, escolas e agentes culturais
a pesquisa segue aberta, em outras comunidades do Brasil
Em trânsito

Nossas memórias são as raízes que nos sustentam e os frutos que alimentam o futuro.

A força que move essa pesquisa vem da cosmovisão dos povos que a compõem: a energia vital que cria, resiste e sustenta a existência. Olhamos para frente com força ancestral, aprendendo a reconhecer o organismo vivo que conecta indígenas, quilombolas e comunidades periféricas em um mesmo território.

Metodologia

Construindo memórias

Uma metodologia aberta, já testada em campo, feita para ser usada por outros grupos e comunidades.

A metodologia foi criada pela produtora cultural e pesquisadora Marina Pereira, que desde 2013 se dedica a investigar e afirmar grupos e comunidades sub-representadas. É dela a concepção do método e a definição do tema de cada edição. Como articuladora do processo, conduz encontros formativos, curadoria e produção sempre em conjunto com os grupos envolvidos.

Desde 2013, ainda como estudante da Unifesp e coordenadora do Centro dos Estudantes de Santos, Marina Pereira desenvolvia ações em torno das memórias negras na cidade. A pesquisa nasce de uma vida, mas se materializa como campo de investigação a partir de 2018, com a criação do coletivo Acotirenes — Construção de Memórias e Negritude, junto de Marília Fernandes, Simone Santos e Ornela Rodrigues, em ações sobre saúde, educação, memória e negritude na Baixada Santista, em parceria com o Instituto Procomum e a Associação Cultural Afro Ketu.

A partir desse recorte, cada edição convoca especialistas para o aprofundamento. Na Baixada Santista, a pesquisa histórica e o texto ficaram a cargo do pesquisador Marcos Augusto Ferreira.

O método aposta na inteligência coletiva: quem viveu a história participa de decidir como ela será contada, em que linguagem e para quem. Dali saem ações, intervenções e obras que juntam arte, tecnologia e território.

O que sustenta tudo isso é a pesquisa-ação: aqui não existe pesquisador de fora observando um território. Investigar e intervir acontecem no mesmo movimento — cada rodada de escuta gera uma ação concreta no território, e cada ação devolve material novo para a pesquisa. Quem é normalmente tratado como objeto de estudo é quem formula as perguntas, decide o recorte e assina o resultado.

O ciclo é sempre o mesmo: escuta e formação coletiva, definição do problema com o grupo, produção de obra ou intervenção, devolutiva pública no próprio território e revisão do que aprendemos. Nenhuma etapa é entregue pronta: o erro, a discordância e a mudança de rumo fazem parte do método e ficam registrados.

O objetivo é usar diferentes linguagens no enfrentamento ao racismo, mostrando que existe muita forma de contar uma história e que a forma escolhida também é política.

É uma metodologia aberta. Se serve para o seu território, ela é sua também.

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Bastidores

Oficinas, corte a laser, impressão 3D e muita conversa em volta de um mapa no chão. A pesquisa também acontece na bancada.

Equipe em volta do mapa no chão da oficina Peça cortada a laser sendo montada Impressão 3D de uma peça da maquete Equipe da fabricação digital Equipe filmando uma entrevista Entrevista sendo gravada em fundo amarelo

Quer aplicar essa metodologia no seu território?

A pesquisa está aberta a novas edições, parcerias e formações. Escreva contando de onde você fala e o que quer registrar.

Obras · edição 2020–2021

O que a pesquisa produziu

As obras a seguir nasceram da edição Memórias, Narrativas e Tecnologias Negras da Baixada Santista, feita em parceria com o Instituto Procomum e o Instituto Ibirapitanga entre 2020 e 2021.

Baía de Santos em preto e branco: tanques, serra ao fundo e um pórtico do porto à direita
Exposição

Mares Nunca Navegados

Uma exposição que nasce de pesquisa histórica sobre uma cidade que já foi terra da liberdade e da igualdade, que já teve quilombos. Uma cidade antiga, uma ilha erguida em volta de um porto.

É uma história de luta que quase sempre termina em apagamento. Por isso construímos o nosso próprio porto: um lugar de ir e vir das nossas memórias, das nossas lutas e dos nossos sonhos. Por ele passam lutadores, heroínas, quilombolas, marinheiros, portuários, crianças e trabalhadores. Alguns a gente nunca conheceu. Outros são da nossa família.

É um porto que permite navegar em nossos mares. Um porto que é territorial, mas conta também a história de outros portos: de um mundo cheio de desigualdade e injustiça, e também de muita luta, esperança e bem viver.

Um porto que permite viagens ao passado, ao presente e ao futuro. Porque a pesquisa também é atemporal: dialoga com o hoje e com o amanhã. Assim é o tempo.

Mares nunca navegados, mas presentes. Seja bem-vinde.

Conceito · texto de apresentação

Olhando máquinas; enxergando pessoas

Entradas e saídas de mercadorias. Carros, roupas e sapatos. Alimento, grãos e carne. Entrada e saída de pessoas. Cruzeiros que navegam, a troca de línguas. Corpos que viram mercadorias.

Somos uma cidade que para. Para ver os navios. Um dia, parei na praia e vi pessoas que também paravam para ver a entrada e saída de navios.

Dinheiro, dinheiro e dinheiro. Muito dinheiro. O avanço da tecnologia. Tecnologia que substitui pessoas e engole empregos.

No porto, vemos o maquinário. O ensacador está no monumento, mas do lado estão as máquinas. E não encontro nenhum ensacador ao lado do monumento. Somente máquinas. Ao lado, porém, uma fila enorme de caminhões. Máquinas da terra, que também são do porto. E ali, somente eles, os vendedores. Vejo bicicletas e isopores vendendo água e café. Carros com os porta-malas abertos com lanches, pedaços de bolo e refrigerante. Um pouco de tudo para alimentar o descanso dos caminhoneiros. Um pouco de improviso para muito cansaço, das muitas viagens, das cargas.

Eu vejo solidão.

O porto é muito grande e nos torna pequenos. Andei por duas horas pelo porto de Santos e pela primeira vez olhei para o céu. Pare e olhe para cima enquanto caminha pelo porto: a grandeza do maquinário que deixou os prédios e monumentos pequenos.

Só de imaginar o açúcar, o feijão, o arroz. Tudo passa por ali. Passa porque eu sinto o cheiro do açúcar refinado, do café, do enxofre. Eu vejo máquinas, maquinários que encostam no céu. Como o porto cresceu tanto? Como chegamos até aqui, com máquinas que dominam os horizontes?

O Porto de Santos. O porto de uma cidade lembra, de longe ou no dizer, o pertencimento. A venda dos peixes, a travessia da balsa. Trabalhadores e turistas, turistas trabalhadores. Mas não vemos pessoas no Porto de Santos. E a minha inquietação é não ver pessoas. Somente máquinas. Um grande robocop. Quem cuida desse maquinário? Como funciona? Quem o construiu?

Caminho pelo porto e olho para o chão. Você já olhou para o chão do porto? O chão de pedras de sabão, que faz as motos escorregarem. Que ecoa o barulho dos caminhões que passam, ajustando ou bagunçando as cargas. Do vendedor de café, pedalando e tremendo, segurando a sua bicicleta Barra Forte.

Eu olho para as máquinas e enxergo o porto do passado. Quando o povo frequentava as casas, as docas, as boates, andava e buscava as lembranças no Centro de Santos. Só vemos máquinas, mas eu vejo migrantes e imigrantes, nordestinos. O povo de fora com seus saberes, o povo daqui batendo os martelos.

Penso nas bordadeiras costurando sacos. Nas profissionais do sexo, que deviam saber os segredos dos sete mares nas noites viradas com os marinheiros. Nos cortiços, que acolheram as pessoas que aportavam mas não queriam voltar. A molecada correndo, empinando pipa na Veneza da Baixada.

Vejo um conjunto de corpos, ideias, sonhos que não estão no mar nem no maquinário. Mas a gente só consegue ver máquinas. Se ele é só máquinas, ele caminha hora para a água indo, hora para a terra voltando. Por onde passou essa água que vai e volta? Por quais marés passou a água do porto?

O porto também está em movimento. As mercadorias, as pessoas, a água. Os sonhos.

Quando escutamos a buzina de um cruzeiro, a manobra de um cargueiro ou o apito do trem, não são as máquinas que falam, são os corpos que gritam.

Texto Cintia Neli · Fotos Victor Sousa
Exposição virtual · Os mares nunca navegados

Cinco capítulos, cada um conduzido por uma pessoa do coletivo. Cartazes de personagens históricos colados nas ruas e nas redes; a investigação de um fotógrafo sobre o próprio bisavô; ensaios sobre o corpo e o porto; os quintais da resistência quilombola urbana; e a infância negra fotografada entre nostalgia e sonho.

“Quando escutamos a buzina de um cruzeiro, a manobra de um cargueiro ou o apito do trem, não são as máquinas que falam, são os corpos que gritam.”

Cintia Neli · texto de apresentação
Maquinário do Porto de Santos, fotografia de Victor Sousa Estruturas do porto vistas de baixo, fotografia de Victor Sousa Chão de pedra do porto, fotografia de Victor Sousa

Capítulo 1 · As personagens

Cartazes com personagens históricos de Santos, em artes que trazem essa história para o presente. Foram colados nas redes sociais e compartilhados nas ruas, em construção coletiva.

Texto · GT Marsha
Homenageadas · Ana Paula Ribeiro, Aurélia Rios, Bete Nagô, Cintia Neli, Day Rodrigues, Dida Dias, Djamila Ribeiro, Maria Patrícia Fogaça, Marina Pereira e Preta Rara
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Capítulo 2 · 25 de janeiro

O fotógrafo Victor Sousa investiga a história do próprio bisavô, Alberto Marinho: um marinheiro negro que saiu da condição de escravizado para se tornar um dos práticos mais importantes do Porto de Santos. Fotografa retratos de família, cola negativos e sobrepõe imagens.

Texto e fotos · Victor Sousa
Apoio · GT Imagem e Memória
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Capítulo 3 · Mar, língua e pajubá

O jornalista e artista Gustavo Pereira publica quatro ensaios sobre o corpo e o porto, com ilustrações e pinturas autorais.

Texto · Gustavo Pereira
Apoio · GT Imagem e Memória
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Capítulo 4 · Os quintais de resistência

A fotógrafa, artesã e militante Bete Nagô mostra como os quintais da resistência quilombola urbana se fazem presentes no seu cotidiano e na sua militância.

Criação · Bete Nagô
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Capítulo 5 · O brincar das crianças negras

A fotógrafa Luiza Serra caminha pelas memórias da própria infância e pelo sonho de outras crianças negras, em fotografias que jogam no contraste entre juventude e nostalgia.

Criação · Luiza Serra
Apoio · GT Imagem e Memória
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Exposição virtual · Capítulo 1

Capítulo 1 · As personagens

“O único lugar onde os negros não se rebelaram é nos livros de historiadores capitalistas.”

C.L.R. James

A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância O eco da vida-liberdade.

Conceição Evaristo · “Vozes-mulheres”, em Poemas de recordação e outros movimentos

Este capítulo de Os mares nunca navegados tem como objetivo resgatar as memórias da população negra da Baixada Santista, interferindo no território positivamente, com o intuito de reafirmar as identidades negras, suas histórias, memórias e vivências.

O Grupo de Trabalho Marsha, refletindo sobre o apagamento histórico das mulheres negras do passado e do presente, escolheu algumas mulheres negras inspiradoras para serem homenageadas — a partir de nossas vivências, das relações estabelecidas com as mulheres extraordinárias presentes neste projeto e em nossas vidas, da nossa relação com a região e das nossas memórias afetivas e de resistência.

As mulheres homenageadas neste capítulo são Ana Paula Ribeiro, Aurélia Rios, Bete Nagô, Cintia Neli, Day Rodrigues, Dida Dias, Djamila Ribeiro, Maria Patrícia Fogaça, Marina Pereira e Preta Rara.

O projeto foi realizado a partir de entrevistas com as homenageadas e também do resgate histórico-biográfico das mulheres do passado, por meio da pesquisa em que o projeto está baseado: Memórias Apagadas na Terra da Liberdade — histórias da população negra da Baixada Santista, do pesquisador e jornalista Marcos Augusto Ferreira.

As pesquisas e entrevistas foram transformadas em biografias poéticas, nas quais a história de vida e de luta das homenageadas é contada. Alguns versos foram selecionados para compor a arte com suas fotografias em lambes, apresentados na exposição virtual e também em locais de Santos, em consonância com os territórios históricos selecionados para a mostra.

A intencionalidade desta exposição é dar visibilidade às pessoas da região em suas relações com a negritude, buscando fomentar nos transeuntes — e portanto espectadores — uma reflexão sobre a própria condição étnico-racial, além de desenvolver uma visão positiva da estética negra e apresentar conhecimentos sobre a história de personalidades negras da região.

GT Marsha · maio de 2021

Cada participante da série ganhou um cartaz próprio, com um verso escrito para ela por Brunna Amicio e Jeferson Nascimento sobre a fotografia feita na sessão. Os cartazes circularam impressos e nas redes.

Capítulo 1 · As personagens
Texto · GT Marsha
Homenageadas · Ana Paula Ribeiro, Aurélia Rios, Bete Nagô, Cintia Neli, Day Rodrigues, Dida Dias, Djamila Ribeiro, Maria Patrícia Fogaça, Marina Pereira e Preta Rara
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Cartaz de Marina Pereira, produtora cultural Cartaz de Aldenir Dida Dias, professora universitária Cartaz de Day Rodrigues, cineasta Cartaz de Cintia Neli, assistente social Cartaz de Maria Patrícia Fogaça, mãe preta de Santos Cartaz de Aurélia Rios, psicóloga Cartaz de Bete Nagô, fotógrafa Cartaz de Ana Paula Ribeiro, professora Cartaz de Preta Rara, cantora Cartaz de Djamila Ribeiro, filósofa
Exposição virtual · Capítulo 2

25 de janeiro

I

Alberto Marinho é meu bisavô. Um dos onze filhos de uma mulher escravizada, Senhorinha, como era conhecida, e de um português que abandonou o Brasil na Proclamação da República ou na Abolição da Escravidão — não sabemos. Deixou o sobrenome Marinho para os filhos da família brasileira, em Pelotas ou Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Junto com seu irmão mais velho, o Capitão Estevão Marinho, e o mais novo, Joaquim Marinho (nascido em 30/10/1895, começou a navegar com 14 anos), começaram a trabalhar na Marinha Mercante, no comércio da carne de charque. Meu bisavô navegou até Nova Iorque como mestre de máquinas. Há documentos, dizem. Não os encontrei.

II

Alberto deve ter chegado em Santos por volta de 1910. Cálculo. Por aqui, desenvolveu com seus irmãos a praticagem livre. Iam com canoas ao alto-mar, ficavam de dois a quatro dias à deriva, esperando a chegada das embarcações.

Consigo imaginar ele subindo as escadas de um cargueiro, se equilibrando, na noite ou na chuva. Não consigo imaginar o que era manobrar um navio naquela época por um canal estreito. Eu vi o mapa hidrográfico artesanal da baía de Santos que eles fizeram com cordas, com nós para medir a profundidade. Num papel que parece tecido, em uma pintura que parece cândida.

Estevão, o irmão mais velho, era conhecido como o melhor prático do porto, e suas manobras eram reverenciadas pelos trabalhadores portuários por não utilizar rebocadores. Com a morte dele, fundaram a Empresa Marítima Irmãos Marinho, de serviços de praticagem, em 1932, com sede na Rua General Câmara, 502.

III

E isso é tudo o que sei do meu bisavô. E sei que nunca vou saber tudo. Essas fotos são camadas dessa história, sem compromisso com a verdade ou a precisão histórica — não acredito nisso. Cresci escutando essas histórias e tenho vontade de contá-las do meu jeito.

Particularmente, prefiro a história que não consigo provar com documentos ou registros. De que eles eram contrários à federalização da profissão e seguiam defendendo a praticagem livre, o que os levou da riqueza à pobreza. Que Joaquim costumava jogar búzios e Alberto era membro da maçonaria e tocava violino. Que ele ficou acamado por um acidente ou um tiro, ou os dois.

De que foram também capitães de longo curso, os mais corajosos marinheiros. Que compraram um escafandro e buscavam tesouros nas embarcações naufragadas no litoral de São Paulo quando a situação financeira apertou. Que eram proprietários de um posto semafórico no Monte Serrat, reivindicado no governo Getúlio Vargas em 1932. Dizem que foram os primeiros práticos a visualizar os navios pelo forte, e não ficar esperando em alto-mar.

“Essa série é justamente isso, uma tentativa de não ficar esperando em alto mar essa verdade que nunca vou conhecer. É somente a vontade de exaltar a força de um marinheiro negro.”

Victor Sousa

O trabalho é feito de retratos de família, negativos colados e imagens sobrepostas — camadas de uma história sem compromisso com a precisão documental, contada do jeito de quem cresceu ouvindo.

Sobreposição de retratos de família da série 25 de janeiro Negativos colados da série 25 de janeiro Imagem sobreposta da série 25 de janeiro
Texto e fotos · Victor Sousa
Apoio · GT Imagem e Memória
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Exposição virtual · Capítulo 3

Mar, língua e pajubá

Aquarelas e escritas feitas durante os encontros. Pindorama, Exu, mutação, palmilhado, e uma lista de nomes que a pesquisa foi juntando.

A masculinidade negra que aporta

Para Robert W. Connell (2000; 1997), existe um cumprimento de gênero no qual masculinidades hegemônicas — cujas marcas mais visíveis são ser branco, heterossexual, rico e ocidental — estão sobrepostas a masculinidades marginalizadas ou subordinadas, identificáveis entre pessoas pretas, pobres, periféricas, não-brancas.

Desse ponto de vista, a representação — como o trabalho de imobilizar o sentido em tipos pretendidos como imagens — participa das formas da reprodução social dos significados e das práticas.

A figura do “menino bonito”

Na Antiguidade, o amor entre iguais era uma das tônicas gregas. Nos banquetes filosóficos, celebravam-se pelo conhecimento, pelo belo, pelo bem e pela irmandade.

O kouros (“jovem”, em grego), representado em estátua de mármore datada de 590–580 a.C., tem ares femininos e masculinos. Recém-saído da puberdade, seus músculos estão em formação, sua cintura é fina e seu rosto, andrógino. Como na performance atual de Thiago Pethit no clipe de “Orfeu”, não há barba, o corpo é magro e os cabelos são longos. Ao ritmo da androginia da Tropicália brasileira, Gilberto Gil compôs em 1979 “Logunedé”, homenagem à entidade do candomblé que é guerreiro: busca o alimento com coragem para sua aldeia, conhecedor de muitos feitiços, vive seis meses na mata caçando com seu pai, Oxóssi, e seis meses no rio pescando com Oxum.

Cada sujeito, mais conformado ou não aos rótulos que a ele são atribuídos, deverá buscar a máscara que melhor molde o seu rosto, o seu corpo e o seu desejo.

Na contemporaneidade, temos a consciência de que não existe uma só homossexualidade — como o psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa vem defendendo ao questionar a ideia universalista de uma homossexualidade e outras dissidências. Assim como não há uma só masculinidade ou uma só feminilidade, as questões de gênero e sexualidade passam pela construção intersubjetiva de estilísticas, formas de existir e performar, através da linguagem, da estética e da vivência de cada ser.

Os dados acima só nos fazem notar que há algo que não se sustenta há muito tempo no ar. Assim como Ícaro na Grécia antiga, em nossa nação: o mito da democracia racial.

Movimentos sociais como o feminista, o negro, o gay e o lésbico deram visibilidade a uma série de questões relacionadas a esses grupos e contribuíram sobremaneira com novos comportamentos frente à vida — produzindo novos contornos, ou borrando as relações entre homens e mulheres no que se refere ao exercício da sexualidade, à compreensão do casamento, à família, aos possíveis arranjos de parcerias afetivas e ao mundo do trabalho.

Acordando de um pesadelo colonial e a farsa da democracia racial

Talvez um dos mitos a cair vertiginosamente em nossa sociedade seja o da “democracia racial”. Não é possível defendê-la em um país com mais de 70% da população carcerária composta por negros; com a maioria dos trabalhadores informais, sem oportunidades, também negros; com o aumento drástico de casos de feminicídio nos últimos anos, sendo a diferença entre os homicídios de mulheres negras e brancas de 71%, segundo estudo publicado pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Um exemplo é o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, vencedora do carnaval de 2019, que trouxe nos destaques nomes invisibilizados dos livros didáticos. O enredo propôs mostrar a outra versão da história do Brasil, uma história que nunca antes fora contada com concisão ímpar. Em cada verso, ícones atuais que lutam pelo respeito e pela erradicação da discriminação racial são mencionados e seus feitos, finalmente, reconhecidos. Substitui os heróis caucasianos oriundos da Europa por indígenas e negros oriundos do Brasil. Por meio de metáforas, analogias e técnicas argumentativas, promove “a história que a História não contou”.

“O discurso é uma representação culturalmente construída pela realidade, não uma cópia exata. O discurso define o sujeito, moldando e posicionando quem ele é e o que é capaz de fazer.”

Michel Foucault, 1981

O poder circula pela sociedade e, ao mesmo tempo hierarquizado, permite examinar regimes de poder através da desconstrução histórica de sistemas geradores de opiniões, significados e discursos. Isso faz com que possamos ver como e por que algumas categorias do pensamento e linhas de argumentação se tornam verdades, enquanto outras maneiras de pensar, ser e agir são marginalizadas.

Pajubá, ferramenta ancestral de corpos negros e LGBTQIA+ vivos

O movimento homossexual, como era chamado na época, tem seu surgimento registrado pela literatura brasileira no final dos anos 1970. Nesse período, que corresponde ao contexto da “abertura”, concentrado principalmente no eixo Rio–São Paulo, grande parte das principais demandas levadas ao espaço público pelo movimento LGBTQIA+ já se encontrava delineada. Durante os anos 1980, apesar da redução expressiva da quantidade de grupos e das dificuldades trazidas pela associação entre Aids e homossexualidade, houve mudanças significativas que influenciam o movimento contemporâneo: a atuação passa a ser vista de modo mais pragmático, voltada para a garantia dos direitos civis e contra a discriminação e a violência.

“Como o desejo, a língua rebenta, se recusa a estar contida dentro de fronteiras. Fala a si mesma contra a nossa vontade, em palavras e pensamentos que invadem e até violam os espaços mais privados da mente e do corpo.”

Foi no primeiro ano de faculdade que li um poema de Adrienne Rich chamado “The Burning of Paper Instead of Children”. Esse poema, falando contra a dominação, o racismo e a opressão de classe, procura ilustrar que pôr fim à perseguição política e à tortura de seres vivos é questão mais vital que a censura, que queimar livros. Um verso comoveu e perturbou algo dentro de mim: “Essa é a língua do opressor, mas preciso dela para falar com você”.

No Brasil, o idioma iorubá se manteve presente pela tradição das rezas, cantigas, rituais e saudações usadas no candomblé. Pode-se dizer que foi a abertura de portas para o ingresso de pessoas não heterossexuais em uma crença religiosa, sem que fossem discriminadas ou tivessem de abdicar de sua orientação sexual em prol de um dogma.

O pajubá, no idioma iorubá, pode também ser denominado nagô, sendo ele o mais falado nos templos de religiões de matriz africana do país. Na maioria, as palavras são usadas no falar LGBTQIA+ numa forma de, como no candomblé, evitar que pessoas de fora entendam conversas íntimas — a língua usada como uma espécie de código de resistência.

Na performance de Thiago Pethit no clipe de “Orfeu”, em Mal dos Trópicos, o cantor reaviva a persona homossexual clássica nascida na Grécia antiga, inicialmente relacionada à erudição, às artes e à androginia.

A imagem de pessoas negras atreladas a pessoas preguiçosas, violentas ou criminosas ronda o imaginário comum e popular, por meio de filmes, novelas e programas de TV. É nesse cenário que setores reacionários avançam e se proliferam como um vírus que destrói a possibilidade de diálogo. Esse vírus se nutre de desinformação e notícias falsas.

Passava-se isso dia a dia, mês a mês, ano a ano, geração a geração, moldando-se um comportamento. Nos últimos livros que você leu, quantos personagens eram descritos como negros? Quantas dessas autoras ou autores dedicaram suas palavras a descrever uma pessoa de pele escura, retinta, com narizes largos e cabelos altos e crespos?

Maria Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Maria Firmina, Dandara, Adélia Sampaio, Camila de Moraes, Day Rodrigues…

Desses livros, quantos foram escritos por mulheres? E dos filmes, quantos foram dirigidos por mulheres pretas?

Gustavo Pereira · GT Imagem e Memória · maio de 2021
Texto · Gustavo Pereira
Apoio · GT Imagem e Memória
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Aquarela roxa com estrelas riscadas a caneta Aquarela azul e amarela com traço largo de nanquim Aquarela em tons de terra e azul, riscada a caneta Faixa roxa com a palavra Exu escrita à mão Barco de casco marrom com âncora, aquarela Papel com a palavra Pindorama e um desenho de território Aquarela verde e ocre com a palavra pajubá Lista de nomes escritos à mão: José Cícero, Sebastião, Francisco, Madalena, Geni Papel plastificado com a palavra filme escrita a caneta Aquarela colorida com a palavra mutação e um barco
Exposição virtual · Capítulo 4

Os quintais de resistência

Quintais da resistência. Uma ligação do passado com o presente. São histórias de resistências dos nossos quintais na Baixada Santista. A ideia inicial da série era, de maneira objetiva, fazer o resgate da importância desses quintais nesse território.

Fazer registros fotográficos que resistem a esse concreto. Fotografar o seu próprio quintal, no bairro do Macuco; o quintal de Thiago Pereira e Dé, do Coletivo Novo Paraíso de Cubatão; o quintal de Dona Isabel, em Cubatão.

Esses são quintais que cultuam a memória e a ancestralidade, um verdadeiro patrimônio, pois são espaços de troca de oralidade, onde a história é vivida e os saberes são trocados.

São quilombos modernos. Eu gosto dessa palavra. De lugares que resistem e existem no plantar medicinal, nos temperos, no comungar da comida, do almoço e dos jantares. Onde se fortalece, se fortalece os nossos. Onde se articula entre um gole e outro.

Eu vivo em um quintal de resistência e só tomei consciência que fazia isso há pouco tempo. Meu quintal sempre foi um local do fazer, do resistir, onde saíram trabalhos. Articulações.

Como no passado, quando nossas pretas velhas e pretos velhos, sigilosamente, cultuavam a medicina e a religião, jogavam nas rodas de capoeira que resistiam nesses espaços.

Um lugar de refúgio que abrigava escravizados fugidos. E se hoje consigo fazer esse tipo de trabalho, é porque alguém lá atrás fugiu e resistiu. E existiu dentro de um quintal desses.

Os quintais de resistência onde Oxóssi quebra o concreto da cidade.

Com a pandemia e a impossibilidade de sair para fotografar, revisitei o meu acervo particular.

Quando fomos convidadas a levar fotos de infância para compor a documentação do projeto, pedi para minha mãe e minha irmã. Elas enviaram fotos do casamento dos meus pais e da infância. E lembraram que 90% das fotos haviam sido tiradas por mim, na infância.

Uma lembrança que eu não tinha. Fiquei surpresa por relembrar os momentos em que era sempre eu quem estava com a câmera na viagem, comprando filme, posicionando a família. Na época entendia que fazer as fotos posadas era interessante.

Eu tiro fotos desde sempre. E não tinha essa memória de que as fotos foram realizadas por mim. Da família, somos nós quem temos o maior acervo de fotos. É o único acervo da família.

Assim, revisitamos aqui os quintais da minha família em Ritapólis, Minas Gerais, e fotografias do meu quintal de hoje, um quintal de resistência.

Bete Nagô · GT Imagem e Memória · maio de 2021
Criação · Bete Nagô
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência Fotografia do acervo Os quintais de resistência
Exposição virtual · Capítulo 5

O brincar das crianças negras

Saí para buscar brincadeiras e quase não encontrei brinquedos. Encontrei palavrões como brincadeiras não repreendidas. Um contraste e um abismo da minha própria infância. Um contraste entre diferentes infâncias e territórios da Baixada.

Contraste que também se mostra dentro da minha família. Tenho sobrinhas que brincam na rua e meias-irmãs que brincam no condomínio fechado.

Não encontrei os responsáveis para conseguir autorização de imagem. Mas tive que fazer amizade com os moradores locais que, coletivamente e mesmo sem conhecer os pais, cuidavam das crianças que brincavam livres.

Saí em busca de crianças brincando. No caminho, brinquei com eles. Pratiquei a minha brincadeira e meu exercício de imaginação favorito desde a infância.

Luiza Serra · GT Imagem e Memória
Criação · Luiza Serra
Apoio · GT Imagem e Memória
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Criança agachada brincando na areia, ao fundo outras duas crianças Crianças jogando bola sob um coqueiro Menino descendo do muro do canal para a água, outro em pé no canal Três meninos sentados na mureta do canal, com a cidade ao fundo
Fotografia

Três Tempos

Uma série de retratos que resgata memórias, histórias e costumes de figuras negras da Baixada Santista pelo rosto: cada linha de expressão como documento.

Foram três fotografias para cada pessoa convidada, uma para cada tempo da vida: passado, presente e futuro. Vistas juntas, formam um álbum de família que a cidade nunca montou.

Conceito e direção de arte · Augusto Pakko
Conceito e fotografia · Andrey Haag
Produção · Juliana Freitas e Marina Pereira
Montagem e edição · Breno Garcia
Trilha sonora · Sergio Otanazetra
Fotografados · Roy Sollon, Juliana de Freitas, Simone Santos, Luiza Serra, Gustavo Pereira, Marina Pereira, Marcos Augusto, Ana Omo Alamoju, Bete Nagô, Augusto Pakko, Cintia Neli, Maurão, Fabrício Dias, Marília Fernandes, Mestre Sombra, Luciana da Cruz, Cristóvão Martins
Retrato com fotografia de infância projetada Retrato em estúdio Mãos folheando um álbum de família
Os álbuns que vieram de casa

Cada participante abriu a própria caixa de fotografias: slides desbotados, retratos 3x4, casamentos, quintais, bois, fornos de biscoito. É desse acervo que os retratos nasceram.

Slides de família em molduras plásticas Slides antigos de família Fotografia em preto e branco de família em festa Retratos de bebês em preto e branco Participante segurando o álbum de retratos Fotografia de arquivo com tucanos
Bastidores do ensaio
Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico Bastidor do ensaio fotográfico
Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (1) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (2) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (3) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (4) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (5) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (6) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (7) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (8) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (9) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (10) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (11) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (12) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (13) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (14) Tríptico da série Três Tempos — passado, presente e futuro (15)
Objeto · Contação de histórias

Montsho Cena

Uma caixa feita com corte a laser, impressão 3D e trabalho manual, que se abre em maquete e vira cenário para contar uma história ambientada na Santos do fim do século XIX.

A narrativa é lúdica e interativa, e fala da luta pela liberdade e da cultura negra antes e depois da abolição.

Funciona como facilitador para contação de histórias, com suporte físico criado por meios de fabricação digital: corte a laser e impressão 3D.

A ideia é provocar pensamento crítico sobre a história do povo negro no Brasil e sua relação com o racismo de hoje, e afirmar identidade e autoestima a partir da memória de protagonistas negros da luta abolicionista em Santos.

Ficha técnica
Concepção da ideia e desenvolvimento · Grupos de Trabalho Santos Hacker Club e Invenções e Traquitanas
Integrantes · Ricardo Grillo, Mauro Fecco, Daniel Calado, Filipe Rito, Ewald Cordeiro, Caio de Marco, Antônio Fernando e Maurice Pirotte
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Invenções e Traquitanas é um coletivo de arte-educadores que se reuniu para construir um “trem” lúdico — uma engenhoca — feito com aproveitamento de materiais, objetos e aparatos tecnológicos, propondo novas possibilidades de criação com brincadeiras, saberes tradicionais e tecnologias sonoras, cênicas e inventivas.

Cultura Hacker é um coletivo interessado em compartilhar conhecimento e construir protótipos e projetos de ciência aberta. Entende que conhecimento não deve ser proprietário e que a tecnologia serve para melhorar a vida das pessoas. Amantes de software livre, Arduino, fabricação digital e eletrônica em geral.

A maquete por dentro
Igreja em miniatura na maquete Casas de palha na maquete Bonde impresso em 3D Canoas no cais da maquete Armazém portuário em miniatura Navios em miniatura Caixa de madeira gravada a laser com a fachada de um sobrado Silhueta do continente africano em acrílico dourado sobre a maquete Maquete iluminada por LED azul Fileira de sobrados em miniatura sobre a maquete Veleiro em miniatura no mar de tecido azul Embarcações de madeira cortada a laser no cais Bonde amarelo sobre os trilhos da maquete Árvore em miniatura sobre a colina verde da maquete Casario e igreja sobre o morro da maquete Figura em miniatura caminhando pela cidade Fachada de sobrado gravada a laser em madeira Detalhe do casario e das ruas de tecido Trem de carga em miniatura no porto Peça arquitetônica em madeira vazada Maquete montada sobre a mesa, vista de conjunto Vista lateral da caixa aberta em cenário Cais iluminado com embarcações ao fundo
Audiovisual · 31 min

Memórias Apagadas da Terra da Liberdade

O registro em vídeo da pesquisa sobre o que Santos escolheu esquecer: a cidade que se disse terra da liberdade e apagou os rastros de quem construiu essa liberdade.

Produzido com o Instituto Procomum. Deu origem também a um episódio de podcast, feito com o História Preta.

Ouvir o podcast →
Ficha técnica
Roteiro e direção · Nilton Ferreira, Marina Pereira e Juliana de Freitas
Captação · Nilton Ferreira, Nildo Ferreira e Yuri Bareti
Produção · Marina Pereira e Juliana de Freitas
Financiamento · Instituto Ibirapitanga
Entrevistados · Marcos Augusto da Silva Ferreira, Marina Pereira, Mestre Sombra, Maurão, Luciana da Cruz, Marília Fernandes, Bete Nagô, Cíntia Neli, Ana Amélia, Fabrício Dias e Pakko
Maquiagem · Cristóvão Pereira
Ilustrações · Dani Emiliano, Inajah Cesar e Ike Banto
Músicas · Pão com ovo, de Maurão · Contos da minha avó, do Afroketu
Audiovisual · 2025

Ilha da Exclusão

Filme produzido em 2025 como desdobramento direto da pesquisa: a ilha de Santos vista pelo que ela empurra para fora — moradia, porto, fronteira e os territórios negros que resistem no que restou.

Cartaz do filme Ilha da Exclusão, um filme de Marina Pereira
Roteiro e design de produção · Marina Pereira
Edição e pesquisa · Márcio Perretti
Narração · Marília Fernandes
Músicas · Brincar Elas e Augusto Pakko
Realização · Mar Produções
Fomento · Lei Paulo Gustavo · Cultura Santos · Prefeitura de Santos · Ministério da Cultura
Música

Criação com o grupo Brincar Elas

Uma música composta junto com o grupo Brincar Elas a partir do material da pesquisa: a memória que vira letra, melodia e brincadeira, e volta para o território cantada.

Capa do vídeo da música criada com o grupo Brincar Elas ▶ Ouvir no YouTube
Letra e melodia · Marília Fernandes
Arranjo, contrabaixo e violão · Beatriz França
Flauta · Mariana Per
Percussão · Lelê Lótus
Voz · Jaque da Silva
Gravação · 2011, Estúdio Pirajá (São Paulo/SP)
Mapeamento

Iniciativas, lugares e pessoas negras da Baixada Santista

Levantamento de coletivos, terreiros, quilombos urbanos, espaços culturais e pessoas que sustentam a vida negra na região. Está sendo recriado para ser publicado aqui, navegável.

Obra · Escrita e poesia

Escritas de Augusto Pakko e Tiago Passo Bechelli

Tem um provérbio africano que diz:
“Se você quiser saber o final, você precisa prestar atenção no começo…”
Então me questiono…
Pelo que passou? Onde estás? Pelo que anseia?
Se por diversas vezes a história se repete ou se reconecta de alguma forma
De forma que não nos deixa caminhar a esmo
Como um rio que corre, corre, corre e deságua em si mesmo
A mata atlântica, o porto e o povo
O mesmo que percorre e perdura no tempo
Através das mãos dos operários, das mãos dos padeiros e das Mães de Maio
A mata atlântica, o porto e o povo
O mesmo que percorre e perdura no tempo
Através de seus antepassados, através desse presente momento
ou através do seu bendito fruto.

Augusto Pakko

“Abrir janelas das paredes do fundo do quarto de despejo, deixar o som entrar, a luz refletida das matas e das águas despertam o corpo apagado pela vida robótica alienada, as entranhas então se alimentam de ar puro, que ativam a vida de encanto.

O corpo aparelho do espírito agora sai do standby, é calibrado, percebe que seu quarto estava invertido e a cidade é que despeja a alma.

Ao derrubarmos os muros, percebemos o som dos pássaros e conseguimos enxergar nossos irmãos, famílias encaixotadas na indústria urbana agora podem entrar nessa roda.

Esse giro não tem volta, agora prefiro sentir o ar puro pendurado no abismo da liberdade que se faz ao lado dos meus irmãos, mulheres, aves e peixes.

Daqui de cima percebi o mar, o caminho das águas pela serra, consigo ver seres resistentes ainda embrenhados na mata, vivendo seu cosmo, seu mundo ainda não devorado, falando uma língua que nada tem a ver com as caravelas, podendo se comunicar com pássaros.

Minha terra agora não é mais o quarto de despejo. Hoje sou eu quem dou o limite dessa cidade que se alimenta de pessoas e florestas, defendo o que estava esquecido e que tem o maior valor, posso enviar uma mensagem pelas águas, o rio fará chegar à aldeia, tenho muito a aprender com meus irmãos regidos pelas florestas, através das águas podemos nos unir, pelas águas viemos encaixotados em navios negreiros.”

Tiago Passo Bechelli · membro construtor da pesquisa
Ilustração

Ilustrações da terra da liberdade

O LAB Procomum convocou as ilustradoras negras Dani Emiliano e Inajah César para dar vida, em traços e cores, às Memórias Apagadas da Terra da Liberdade. A partir dessa pesquisa, seu objetivo é tecer imagens que resgatem fatos, personagens e símbolos da história negra da Baixada Santista, que há tanto tempo enfrentam o silêncio do apagamento.

Cada ilustração se torna um ato de resistência, um fio que reconecta a narrativa interrompida, revelando rostos, gestos e histórias que o tempo tentou velar, mas que agora renascem nas ilustrações.

Inajah César

Carioca, ex-aluna da escola pública, designer gráfica formada pela PUC-Rio, onde desenvolveu projetos e pesquisas com temas relacionados à cultura popular, aos fazeres manuais e tradicionais, e a experimentações gráficas com ilustração, bordado, colagem e outras técnicas não digitais.

Atualmente, como freelancer, constrói os caminhos no estúdio quitanda, um espaço para construção de projetos de design gráfico, ilustração, editorial e impressos diversos, através da escuta atenta, parcerias e trocas sinceras.

Ilustrações · Pessoas: personagens negros importantes para a construção histórica da Baixada Santista
· Porto Negro
· Feiras: pontos de cultura e encontros

Dani Emiliano

Ilustradora e artista gráfica de São Vicente (SP). Com mais de 15 anos de carreira, trabalha com desenvolvimento e criação de personagens, retratos ilustrados e ilustrações editoriais.

Um dos trabalhos mais marcantes aconteceu em 2019, quando ilustrou a história da escritora Carolina de Jesus para a série animada “Mulheres Fantásticas”, exibida no programa Fantástico. Para ela, a ilustração tem sido uma importante ferramenta para descobrir novos caminhos e histórias bonitas sobre o Brasil e sobre as pessoas que o constroem.

Ilustrações · Bairro Macuco e Vila Mathias
· Disputa do espaço urbano
· Quilombos e Refúgios
Ilustração da série Pessoas: retratos de personagens negros da Baixada Santista
Série Pessoas, personagens negros importantes para a construção histórica da Baixada Santista · Inajah César
Ilustração da série Porto Negro: capoeira, carregadores e vendedoras no cais de Santos
Série Porto Negro · Inajah César
Ilustração da série Feiras: vendedoras e fregueses entre barracas de frutas
Série Feiras, pontos de cultura e encontros · Inajah César
Ícone da série Porto Negro sobre fundo azul
Ícone da série Porto Negro · Inajah César
Ilustração panorâmica do mapa da Baixada: palafitas, quilombos, capoeira, terreiro, porto e roda de tambores
Mapa ilustrado do território · Inajah César
Ilustração do bairro Macuco e Vila Mathias: roda de samba, capoeira e casarões amarelos
Série Bairro Macuco e Vila Mathias · Dani Emiliano
Ilustração em duas metades: o centro histórico de trabalhadores negros e a orla de edifícios
Série Disputa do espaço urbano · Dani Emiliano
Ilustração de quilombo: roda de dança e tambor entre casas de taipa e palmeiras
Série Quilombos e refúgios · Dani Emiliano

Ike Banto

Professor, designer gráfico, ativista e comunicador, com forte atuação no movimento negro, na preservação da cultura afro-brasileira e na promoção das tecnologias livres.

Desenvolve projetos e oficinas pedagógicas focados em comunicação, memória e inclusão digital, com grande influência na Baixada Santista e na região de Campinas, em São Paulo.

Ilustração de mulher negra de perfil sobre fundo azul, com a frase Memórias apagadas repetida Ilustração de mulher negra de turbante vermelho sobre fundo amarelo Ilustração de menina negra de perfil sobre fundo rosa Ilustração de figura negra de turbante alto sobre fundo verde
Série de ícones para Memórias Apagadas na Terra da Liberdade · Ike Banto
Ilustração de figura negra sobre fundo verde, série Pessoas Ilustração de mulher negra de perfil com auréola, sobre fundo azul Ilustração do porto: embarcação, armazéns e trabalhadores Ilustração de mulher de turbante vermelho sobre fundo amarelo Ilustração de silhueta negra sobre fundo rosa com grafismos
Protótipos

Experimentações que saem das formações

Ideias e soluções que emergem das atividades e formações do projeto. Exploram novas abordagens em memórias, narrativas e tecnologias negras, e em outros temas de interesse do coletivo.

Mares Nunca Navegados

O porto construído pelo coletivo, em exposição.

Caixa Preta · Montsho Cena

A caixa de contação de histórias que virou a obra Montsho Cena.

Ideação e desenvolvimento · GT Santos Hacker Clube e GT Invenções e Traquitanas
Integrantes · Ricardo Grillo, Mauro Fecco, Daniel Calado, Filipe Rito, Ewald Cordeiro, Caio de Marco, Antônio Fernando e Maurice Pirotte
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Formações · primeiro ciclo

Três círculos, 140 participantes

Círculo Tecnologias Livres

Cinco encontros

Participantes · Casa de Cultura Tainã, MudaLab, GT Cultura Hacker e GT Invenções e Traquitanas
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Círculo Comunicação e Memória

Oito encontros

Participantes · Datalabe e Ike Banto
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Círculo Imaginário e Narrativas

Quatro encontros

Participantes · Nicho 54 e GT Audiovisual
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas

Mais de 140 participantes se encontraram online, de São Paulo, Minas Gerais, Salvador, Espírito Santo, Amazonas, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Paraná, Acre, Distrito Federal e de Bogotá, na Colômbia.

Convidados
Fábio Miranda · Favela da Paz
Janaína Damasceno
Clementino Junior · Cultne
Filó Filho
Luiz Augusto Campos
Gabriela Roza
Ana Carolina Lourenço · Mulheres Negras Decidem
Thiago André · História Preta
Aline Motta e Bruna Rocha · Nicho 54
Também nasceu da pesquisa
O que a pesquisa evidencia

Os nomes, os quilombos e os ofícios que a cidade guardou fora da conta oficial

A pesquisa põe no centro quem sustentou Santos e foi escrito nas margens: Maria Patrícia Fogaça, aparadeira e símbolo da Mãe Preta; Euclydia e Lidyonetta, as tias do samba à frente das Baianinhas do Bonfim; Alberto e Estevão Marinho, práticos negros que manobravam navios pelo canal com mapas feitos de corda e nó.

Levanta os quilombos do Pai Felipe e do Jabaquara, os territórios do Valongo e dos Quartéis, o pelourinho que existiu onde hoje está a Alfândega, os conventos que mantinham dezenas de pessoas escravizadas e as alforrias registradas pela Junta Classificadora até 1888.

Não é reescrever a história da cidade. É devolver a ela os nomes que foram apagados na conta do progresso — e mostrar que essa memória segue viva nos quintais, nos terreiros, nas rodas e nas famílias que a pesquisa ouviu.

Podcast · 1 episódio · com o História Preta

Memórias apagadas na terra da liberdade

Um episódio sobre o que Santos apagou da própria história e sobre quem nunca deixou essa memória morrer.

Baixar o episódio em MP3 ↓

O episódio foi produzido com o História Preta, projeto de Thiago André, dentro da edição sobre memórias, narrativas e tecnologias negras da Baixada Santista.

Serve para escuta em sala de aula, em roda de conversa e em formação de agentes culturais. Se você usar o material em atividade pedagógica, escreva contando. A gente gosta de saber onde a memória chegou.

O episódio faz um paralelo entre o primeiro capítulo da pesquisa histórica sobre a Santos do século XIX e a desigualdade social de hoje, consequência da escravidão e da ausência de qualquer reparação, material ou abstrata.

Ficha técnica
Pesquisa · Marcos Ferreira
Roteiro · História Preta
Produção · Marina Pereira e Juliana Freitas
Financiamento · Instituto Ibirapitanga
Finalização · RADIOSILVA.ORG
Narração de abertura e fechamento · Luiza Xavier
Entrevistados · Marina Pereira, Marcos Augusto e Juliana de Freitas
Créditos e parceiros

Quem faz

Pesquisa coletiva não tem autor único. Esta página existe para nomear quem construiu cada etapa.

Idealização e coordenação

Marina Pereira, produtora cultural e pesquisadora.

  • ·Idealização e concepção da pesquisa
  • ·Definição do tema
  • ·Concepção metodológica
  • ·Coordenação geral
  • ·Contratação e supervisão da pesquisa
  • ·Orientação editorial

Desde 2013, como estudante da Unifesp e coordenadora do Centro dos Estudantes de Santos, já desenvolvia ações sobre as memórias negras da cidade. A pesquisa nasce de uma vida, mas se materializa como campo de investigação a partir de 2018, com a criação do coletivo Acotirenes — Construção de Memórias e Negritude, ao lado de Marília Fernandes, Simone Santos e Ornela Rodrigues, com ações sobre saúde, educação, memória e negritude na Baixada Santista, em parceria com o Instituto Procomum e a Associação Cultural Afro Ketu.

Fundadora da Mar Produções, atua há mais de dez anos na elaboração, captação de recursos, gestão e execução de projetos culturais e sociais, assessorando artistas, coletivos, instituições e iniciativas comunitárias — da concepção à prestação de contas, por editais públicos, emendas parlamentares, leis de incentivo, patrocínios privados e parcerias institucionais.

Entre 2016 e 2022 foi Gerente de Comunidades e Inovação no Instituto Procomum; entre 2021 e 2023 coordenou o Núcleo de Projetos da CUFA Baixada Santista. Hoje coordena a área de captação e projetos da Associação Cultural Afro Ketu e do Coletivo Novo Paraíso. Entre 2024 e 2026 atuou como Agente Territorial de Cultura do Ministério da Cultura, no Programa Nacional dos Comitês de Cultura (PNCC).

É desenvolvedora do Hub Mar Cultural, sistema de gestão que integra tecnologia e inteligência artificial à rotina de produtoras independentes e coletivos, e idealizadora do CAIS — Escola Cultural (Centro de Aprendizagem e Inovação Sociocultural), voltado à formação, criação e articulação de iniciativas culturais na Baixada Santista.

No audiovisual, dirige o curta documental Ilha da Exclusão, que investiga as memórias e os processos de segregação racial na Baixada Santista. Graduada em Gestão e Produção Cultural e licencianda em História, dedica sua atuação ao fortalecimento de organizações, coletivos e iniciativas independentes por meio do acesso a oportunidades, recursos e políticas públicas.

Pesquisa histórica e texto

Marcos Augusto Ferreira, pesquisador histórico, autor do texto Memórias Apagadas na Terra da Liberdade: histórias da população negra na Baixada Santista.

  • ·Pesquisa histórica
  • ·Levantamento e análise de fontes
  • ·Redação do texto histórico
  • ·Autoria do texto
Parceiros institucionais

Instituto Procomum e Instituto Ibirapitanga, na edição Memórias, Narrativas e Tecnologias Negras da Baixada Santista, realizada entre 2020 e 2021.

Artistas e criadores convidados

Cada obra tem autoria própria. Estes são os artistas, escritores, fotógrafos e coletivos que criaram dentro da pesquisa.

Escrita e poesia · Augusto Pakko · Tiago Passo Bechelli · Cintia Neli · Gustavo Pereira · Brunna Amicio · Jeferson Nascimento · GT Marsha
Fotografia · Victor Sousa · Bete Nagô · Luiza Serra · Andrey Haag
Ilustração · Dani Emiliano · Inajah César · Ike Banto
Audiovisual · Nilton Ferreira · Nildo Ferreira · Yuri Bareti · Breno Garcia · Márcio Perretti
Música e som · Brincar Elas · Augusto Pakko · Marília Fernandes · Beatriz França · Mariana Per · Lelê Lótus · Jaque da Silva · Maurão · Afroketu · Sergio Otanazetra · RADIOSILVA.ORG
Narração e voz · Marília Fernandes · Luiza Xavier
Homenageadas do Capítulo 1 · Ana Paula Ribeiro · Aurélia Rios · Bete Nagô · Cintia Neli · Day Rodrigues · Dida Dias · Djamila Ribeiro · Maria Patrícia Fogaça · Marina Pereira · Preta Rara
Podcast · História Preta (Thiago André)
Protótipos e formações · GT Invenções e Traquitanas · GT Cultura Hacker · GT Imagem e Memória · Casa de Cultura Tainã · MudaLab · Santos Hacker Club
Maquiagem · Cristóvão Pereira
Produção

Mar Produções, produtora cultural de Santos, responsável pela produção executiva e pela captação dos recursos da pesquisa. Produção de campo: Marina Pereira e Juliana Freitas. Fale com a produção.

A pesquisa segue em movimento por outras comunidades do Brasil, em tempo circular e contínuo, como a vida é e será.

Pesquisa histórica · leitura completa

Memórias Apagadas na Terra da Liberdade

Histórias da população negra na Baixada Santista

Pesquisa histórica e autoria do textoMarcos Augusto Ferreira
Idealização, tema e orientação editorialMarina Pereira
EdiçãoBaixada Santista · 2020–2021 · com Instituto Procomum e Instituto Ibirapitanga
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RESUMO

“Santos se faz na transição da escravidão para o trabalho livre”

Afirmação da historiadora Ana Lúcia Duarte Lanna, autora do livro Uma Cidade na Transição – Santos: 1870-1913 – esse é um período de muitas transformações urbanas e sociais e de epidemias.

"O crescimento urbano foi caracterizado pela edificação de belas casas e palacetes, pela negação do sobrado colonial e das formas de vida nele estabelecidas, pela construção de novos espaços e forma de lazer, pelo aparecimento de lojas, cafés, restaurantes, teatros e parques. Mas foi, ao mesmo tempo, caracterizado pelo aparecimento de cortiços, de bairros populares, de trabalhadores ditos 'arruaceiros', 'incivilizados', 'vagabundos' que com sua presença e movimento também marcaram as novas cidades." (LANNA, 1996, p. 19-20)

Na virada do século XIX para o XX, afirma a autora, "as demolições e reconstruções vão instituindo novas memórias e marcos de referência, elegendo heróis e instaurando formas de viver" (LANNA, op.cit, p. 88). Essas transformações demonstram como a reordenação dos espaços públicos e privados promovem a segregação social, ao mesmo tempo em que criam no imaginário um padrão do que se define como progresso e a quem ele se destina.

Pegando o bonde das histórias

O ponto de partida é o um passeio no bonde turístico pelo chamado ´Centro Histórico` de Santos.

O trajeto começa e termina em frente à Estação do Valongo, local bastante significativo para a história da cidade.

Ali surgiu a ferrovia Santos-Jundiaí, símbolo do desenvolvimento na época do café.

Ao lado da Estação, a Igreja do Valongo (parte do complexo religioso, de 1640 – o restante foi derrubado justamente para construção da ferrovia), um dos dois importantes núcleos urbanos de Santos, até o século XVIII. O outro era a área denominada Quartéis, mais antiga, na direção oposta ao Valongo.

Enquanto o bonde percorre ruas entre ruínas do cais, prédios históricos e prédios em ruínas, o guia o guia se esforça para levar os passageiros a uma viagem pelo tempo da 'riqueza do café' – uma viagem à segunda metade do século XIX. Aponta praças, monumentos, prédios públicos e particulares: o Largo Marquês de Monte Alegre, o Palacete de Mauá, a Rua XV de Novembro, a Bolsa do Café, a Casa da Frontaria Azulejada, entre outros marcos 'eleitos' para sintetizar a história de sucesso da cidade.

Pouco se fala da mão de obra escrava, das pretas e pretos libertos ou fugidos que viviam por ali ou mais adiante, nos quilombos do Pai Felipe e do Jabaquara. A população negra surge na narrativa apenas quando o bonde passa pela Praça Rui Barbosa e, diante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, vem a informação de que foi 'uma irmandade fundada para abrigar libertos' – a então capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Soam, então, frases genéricas como: 'Santos era contra a escravidão' e 'a Abolição aconteceu aqui, espontaneamente, sem precisar de lei'. Frases tão imprecisas que a palavra 'espontaneamente' dói nos ouvidos.

A 'Abolição' é tratada como fato isolado, como se nenhuma relação houvesse com escravidão e escravização, como se não existissem outros cotidianos por trás das belezas destacadas.

Os guias de turismo, como tantos outros, autoridades ou não, reproduzem discursos ratificadores do imaginário de uma cidade que parece ter surgido somente a partir da segunda metade do século XIX, na esteira do progresso gerado pela ferrovia, da chegada da energia elétrica, das exportações do café, da modernização do porto, dos casarões. Uma cidade de braços abertos aos imigrantes, sobretudo os europeus. Afinal, a Europa é então a referência de civilização.

Por uma narrativa mais ´realista` e abrangente

Por exemplo, na região onde hoje está o prédio da Alfândega, já houve um pelourinho, uma pequena senzala, instalações militares, a primeira Matriz e Santa Casa.

Aliás, por falar em Alfândega, e contrariando a tese que a 'abolição total' em Santos ocorreu em 1886, a Junta Classificadora de Escravos, órgão alfandegário de outrora, em seu Mapa de Escravos Alforriados informava a ocorrência de 54 alforrias, no período entre 30 de março de 1887 e 20 de março de 1888.

Quando o Convento do Carmo é apontado com toda ênfase religiosa, pode-se dizer que: “Ao longo de 1798 e 1836, um dos grandes escravistas de Santos era o Convento de Nossa Senhora do Carmo. Em 1798, havia ali quatro padres e 50 escravos. Já em 1802, ainda como um grande escravista, contava com dois padres e uma escravaria de 49 cativos.

Já no Convento do Valongo, por volta de 1798, eram 12 os escravos, conforme escreve J. Muniz Jr. Em 1853, "restavam apenas três: o africano Diogo, o crioulo Benedito e o pardo Dito", revela o autor de O Negro na História de Santos (2008, p. 27).

Não eram só os conventos, obviamente. Grandes e pequenos comerciantes possuíam escravos. Era o caso da viúva Gertrudes de Oliveira Buenca, de 52 anos, proprietária de fazenda onde eram produzidos arroz, café e aguardente, certamente para consumo na própria vila.

Em 1802, ela mantinha 46 cativos, número que subiu para 51 em 1837

Na passagem do século XVIII para o XIX a população cativa em Santos saltou de 1.017 para 2.500, um crescimento de 145,82%.

A família dos Andradas

Quando o assunto é a 'Terra da Caridade e Liberdade', o santista José Bonifácio de Andrada e Silva é exaltado pela defesa da Abolição. O bonde passa ao lado do Patheon dos Andradas, inclusive.

Para além da luta pela Independência e de seus préstimos ao Império, as efemérides costumam se basear, também, na representação que José Bonifácio iria apresentar à Assembleia Constituinte de 1823, pois nela estaria registrado quão ávido abolicionista era esse nobre senhor.

Ora, primeiramente, é preciso dizer que a proposta do constituinte sugeria acabar 'gradualmente' com os 'últimos vestígios da escravidão'.

Propunha, ainda, uma 'nação homogênea', 'ir acabando com tanta heterogeneidade física e civil', inclusive com uma defesa dos 'casamentos mistos'.

Como bem ressalta a historiadora Mary Del Priore, em As Vidas de José Bonifácio, o desejo era "construir na América uma nação de padrão tal qual vira na Europa" (2019, p. 205). A autora observa que, no entanto, a nação já era mestiça. O que se reflete nas palavras de José Bonifácio é a miscigenação vista como homogeneidade, igualdade.

Claro, índios "dariam ótimos tropeiros, pescadores, soldados, peões e vaqueiros".

Quanto aos negros, José Bonifácio considerava que "a incapacidade para a cidadania decorria da escravidão", o que poderia "impedir a constituição do Estado civilizado"

A representação não foi adiante, pois a Assembleia Constituinte foi dissolvida em novembro de 1823.

O ponto inicial – a Vila de Santos (1546) e a Cidade (1639)

Até o século XIX, o que se definia como vila e cidade estende-se do Outeiro de Santa Catarina até o Valongo, num traçado de cerca de 2km de extensão que desenha uma espécie de retângulo até a região dos morros Monte Serrat e Fontana/São Bento.

Esse pequeno espaço, em diferentes épocas, abrigou engenhos, 'praias' lamacentas e fétidas e um porto nada exuberante. Algumas citações falam em não mais que 30 ruas cortando o território.

Em Um Cidade na Transição – Santos: 1870-1930, Ana Lúcia Duarte Lanna escreve:

“O ponto inicial da cidade tinha como marco o Outeiro de Santa Catarina, o hospital e a Câmara Municipal que se situavam naquilo que Frei Gaspar chamava de terras ao Oriente. Foram nesse primeiro núcleo de ocupação, construídos os quartéis. Essa denominação se estenderá para a região que se oporá à do Valongo. Até o século XVIII ocorreria um movimento de transferência da vila das terras iniciais de ocupação para a região do Valongo, mais próxima a Cubatão, facilitando os contatos com o planalto. Como a vila sempre teve função portuária, expandia-se junto ao mar. Havia uma única rua, a Direita, que fazia a ligação entre estes dois bairros da cidade e que permaneceu até o século XIX como a mais importante.” (LANNA, 1996, p.40-41)

Quarteleiros X Valongueiros

Aliás, há aqui uma boa história para se contar a turistas e, certamente, a muitos moradores da cidade e região.

Até o século XVIII, a vila era constituída por esses dois núcleos, Quartéis e Valongo, onde, em 1640, os franciscanos instalaram o referido convento.

O ambiente é descrito assim por Lanna: “O Valongo, mais recente, com predomínio das funções comerciais, “composto quase que totalmente por elementos de origem portuguesa, reinóis ou ilhéus, ativos, perseverantes, mas refratários, no seu dúplice orgulho de conquistador e argentário à intromissão dos filhos da terra nos negócios principais”. O dos Quartéis era mais antigo, com predomínio das funções militares e administrativas. Aí habitava uma população de “condição modesta, que vivia da pesca, extração de lenha nos mangues e formada predominantemente por elementos de origem nacional, caboclos e mulatos, com sentimento de rancoroso nativismo”.” (Op.cit. p.41 – grifos da autora)

No Valongo, instalam-se comerciantes em construções que sobrepujavam aquelas existentes na área dos Quartéis, mais antiga. Ou seja, havia uma tensão social entre os dois núcleos.

Tamanha era essa tensão que neles surgiram, respectivamente, os temidos valongueiros e quarteleiros, que incluíam capoeiristas, valentões e quem mais se dispusesse a brigar.

Os grupos protagonizavam verdadeiros embates para marcar território.

Como mostra Lanna, valongueiros e quarteleiros não estavam para brincadeira: “A partir de 1850, as tensões agravaram-se praticamente interditando o acesso às missas no Santo Antônio pelos quarteleiros e às da Matriz pelos valongueiros. No início dos anos 1860 as autoridades convocaram um piquete da cavalaria do governo provincial para cessar com os tumultos. A cavalaria foi derrotada pela população que teria trancado a rua com fios de arame.” (Op.cit. p.41)

O ´milagre` e a união dos rivais

Não menos interessante é o episódio que marca a união entre quarteleiros e valongueiros, uma narrativa que mistura lenda e imaginário religioso, além de prenunciar os embates que viriam em nome de uma 'modernidade' que excluiria daquele espaço boa parte daquelas pessoas.

A narrativa é inusitada e foi reproduzida em jornais da época, assim como tem sido repetida em livros, como o da própria Ana Lanna e o de J. Muniz Jr.: no final dos anos 1860, houve a tentativa de demolir a Igreja de Santo Antônio do Valongo para abrir terreno à construção da ferrovia Santos-Jundiaí.

Porém, a imagem do santo teria resistido à força de até 30 homens responsáveis pela demolição, que não conseguiram arrancá-la do altar. Foi então que valongueiros convocaram quarteleiros para unirem forças contra os estrangeiros, mão de obra na construção da ferrovia, já que pretendiam 'derrubar as tradições e os brios da cidade'. 'Façamos uma trégua em nossas diferenças! Somos todos santistas!' Essas teriam sido as frases que levaram a população às ruas, impedindo a retirada do santo e a demolição da igreja.

Mesmo assim, parte do complexo dos franciscanos foi demolida, incluindo a área onde eram feitos enterramentos. Até 1850, quando a Câmara, e não mais os religiosos, passou a ser responsável pelos enterros, os mortos eram enterrados dentro da igreja ou no chamado campo santo, sua parte externa.

O negro na história de Santos

Como vários historiadores, J. Muniz Jr. defende a tese de que, antes mesmo da chegada de Martim Afonso de Sousa em 1532, ou seja, antes da fundação oficial da Vila de São Vicente, o Porto de São Vicente já era visitado por navegadores e aventureiros. O autor sugere, porém, que é a partir de 1532 que são desembarcados nessas paragens os primeiros escravizados negros:

“Portanto, já nesta época, de acordo com as citações históricas, começam a chegar os primeiros africanos escravizados para serem utilizados nas lavouras de cana-de-açúcar e nos engenhos da Ilha de São Vicente. Tanto é que, o fidalgo Pero de Góes solicitou negros para o Engenho da Madre de Deus, o mesmo acontecendo com o nobre genovês José Adorno, que adotou escravos na sua sesmaria junto ao ribeiro de São Jerônimo no primitivo povoado de Enguaguassu.” (MUNIZ JR., 2008, p.24)

O fato é que, ao aportar em São Vicente, a esquadra de Martim Afonso de Sousa trouxe fidalgos, plebeus portugueses, espanhóis, italianos e alemães. Todos a serviço da Coroa Portuguesa que, de acordo com 'suas qualidades e/ou merecimentos', foram agraciados com terras em toda a Ilha de São Vicente.

Assim surgem os primeiros engenhos, tanto naquela área do porto vicentino quanto do outro lado, local mais protegido do território, junto ao estuário, atual região portuária.

O engenho de Pero Góes, chamado Madre de Deus, foi um dos primeiros a se instalar nesse outro lado da ilha já em 1532. Ele ficava localizado no "Morro das Neves, às margens do rio Jurubatuba, fronteiro ao Valongo" – no "primitivo povoado do Enguaguassu", conforme descreve Muniz Jr. (Op.cit. p. 24).

Na mesma época, os irmãos e fidalgos genoveses José e Francisco Adorno instalaram o Engenho de São João, "entre os ribeiros de São Jerônimo e do Desterro (nas imediações das atuais Praça Rui Barbosa e Praça dos Andradas)." (p. 20)

Havia, ainda, junto a outro morro, o Engenho do Senhor Governador, que tinha entre seus proprietários o próprio donatário Martim Afonso de Sousa. Adquirido pelo alemão Erasmo Schetz (Scheter, Schette ou Esqueter) e descendentes, tornou-se conhecido como Engenho de São Jorge dos Erasmos. Suas ruínas junto à subida do Morro da Nova Cintra, bairro da Caneleira, atual Zona Noroeste de Santos, elas estão sob responsabilidade da Universidade de São Paulo (USP) desde a doação datada de 1958. Desde 2004, ainda que timidamente, a universidade desenvolve projetos de educação, turismo e preservação da história no local.

Entre tantos agraciados com terras, vale citar também Luiz de Góes, que "foi para junto do outeiro à beira-mar, onde sua mulher, Dona Catharina de Andrada e Aguilar, mandou erguer, em 1540, uma pequena capela, sob a evocação de Santa Catarina" (MUNIZ JR., p. 21.).

É a partir do Outeiro de Santa Catarina que o 'primitivo povoado de Enguaguassu' vai se tornar a Vila de Santos. O fato ocorre depois de as terras serem adquiridas por Brás Cubas, que mandou erguer, nas proximidades do Outeiro, um pequeno hospital e a capela, ambos em devoção à Nossa Senhora da Misericórdia.

O historiador Clóvis Moura, em História do Negro Brasileiro, aponta outra provável data para a chegada dos africanos, mas também sugere a ocorrência de desembarques antes dos anos 1530:

“Esta história começa com a chegada das primeiras levas de escravos vindos da África. Isto se dá por volta de 1549, quando o primeiro contingente é desembarcado em São Vicente. D. João III concedeu autorização a fim de que cada colono importasse até 120 africanos para as suas propriedades. Muitos desses colonos, no entanto, protestaram contra o limite estabelecido pelo rei, pois desejavam importar um número bem superior. Por outro lado, alguns historiadores acham que bem antes dessa data já haviam entrado negros no Brasil. Afirmam mesmo que na nau Bretoa, para aqui enviada em 1511 por Fernando de Noronha, já se encontravam negros no seu bordo. Essa presença, como vemos, confunde-se com a formação da Colônia e, depois, do Império, chegando até os nossos dias.” (MOURA, 1992, p. 7 e 8)

Clóvis Moura aponta um fato mais importante para a compreensão do sistema escravista. Diz o historiador que os colonos chegados da Europa ou eram comerciantes ou tinham que obter 'cartas de sesmaria', ou seja, terras para o cultivo. Moura salienta que a posse de escravos era a condição para a obtenção dessas cartas e ressalta que, para a economia colonial baseada na produção para o mercado externo, o trabalho negro-escravo foi fundamental: "passa pela produção açucareira, pela mineração, produtos tropicais e termina na fase do café" (MOURA, op.cit., p. 12). Tudo é feito pelo negro, que de nada se beneficiou.

Os números variam, mas indígenas e africanos estavam em todos os lugares: nas lavouras canavieiras, nas de alimento, no trato com o gado, no transporte de mercadorias. "Em 1548, o Engenho São Jorge dos Erasmos possuía 130 cativos indígenas e apenas sete africanos" (GOMES, SCHWARCZ, op.cit. p.26).

Importante destacar que a variação numérica foi crescente em relação aos negros escravizados no outro lado do Atlântico. Ressalte-se que, em junho de 1755, uma lei criada pelo Marquês de Pombal proibiu a escravidão indígena no Grão-Pará e Maranhão, proibição essa que foi estendida aos demais territórios a partir de 1758.

Em 1709, São Vicente deixa de ser capitania hereditária e toda a região passa a pertencer à Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, que abrangia extenso território (SP tornou-se capitania autônoma somente em 1720, com a separação Minas Gerais).

As populações negras e indígenas começam a ser utilizadas também para exploração de áreas de possíveis reservas auríferas, principalmente em regiões hoje pertencentes a Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Em 1799, escravos representavam quase 50% da população da Vila de Santos. Muniz Jr. afirma que a 'população pacata' do vilarejo era "de 3.403 habitantes, com cerca de 1.600 escravos, muitos dos quais, conduzindo carros de boi ou carregando cadeirinhas ou liteiras, onde se acomodavam os abastados senhores e as devotas sinhás, seguindo para a igreja ou desfrutando de simples passeio, através de pitorescas cenas." (MUNIZ JR., 2008, p. 28)

Menos de 50 anos depois, quase no findar da primeira metade do século XVIII, aos negros juntam-se europeus, principalmente imigrantes portugueses, espanhóis e italianos. Estimulados por políticas de imigração bancadas pela elite, com apoio do Império, chegam como mão de obra assalariada ou já com destino certo para cultivar outras terras, muitos deles pobres que usaram suas economias para a viagem.

No porto, como veremos adiante, negros libertos e escravizados 'alugados ou autorizados pelos senhores' passarão a disputar espaço. No final do século XIX, pós-Abolição, serão mão de obra barata e até mesmo acusados de furar greves.

Carregar barris de excrementos e outras ´tarefas` domésticas

O trabalho não era mais leve para os escravizados domésticos. Ao contrário, era pesado e sujo. Muniz Jr., valendo-se de informações trazidas na obra Santos-Reminiscências, de autoria de Carlos Victorino, dirá:

"Além de apanhar água fresca pela manhã nas fontes das encostas dos morros, carregavam na cabeça os asquerosos 'tigres' (barris de excrementos), com as fétidas matérias fecais oriundas das escarradeiras ou dos urinóis dos seus senhores. Tais imundices eram acumuladas durante o dia em barricas ou em grandes potes que, uma vez abarrotados, eram levados, ao anoitecer, para o despejo nos rios ou ribeirões que entrecortavam a cidade, inclusive no Estuário, já que não existiam esgotos. O pior de tudo era quando, por excesso de insuportável carga, um desses repugnantes 'tigres' estouravam nas costas do negro carregador, numa cena degradante." (MUNIZ JR., op.cit. p.29)

Mulheres das nossas histórias

Assim como ocorreu com negros que estiveram na linha de frente de várias lutas, o nome e a trajetória de muitas dessas mulheres foram apagados ou estão perdidos nas entrelinhas de notas de jornais, relatos, processos. Além disso, o silenciamento imposto pela escravidão contou com o auxílio das imposições de uma sociedade machista.

Como registrou Muniz Jr., as negras atuaram nas mais diversas áreas, inclusive à frente de ações abolicionistas.

Vale dizer que o português Santos Pereira - ou Santos Garrafão - é frequentemente citado quando o assunto são quilombos e refúgios na cidade. No entanto, pouco se fala sobre Brandina, a negra companheira de Garrafão, responsável por esconder fugidas e fugidos no quintal da residência. A ela cabia a organização e o preparo das refeições. O comerciante se encarregava de providenciar alimentação.

Negras eram muito requisitadas, também, para o serviço de 'aparadeiras' ou parteiras, como é o caso de Maria Patrícia Fogaça, filha dos pretos libertos Patrício e Joana.

"Em 1871, quando a Cidade tinha 9.151 habitantes (7.545 livres e 1.606 escravos), ela já exercia condignamente a profissão que abraçou, sofrendo, inclusive, uma campanha de desmoralização devido a sua cor. E diante das hostilidades impostas por pessoas preconceituosas, contou com o apoio do Dr. Silvério Fontes que, na qualidade de conceituado médico, procurou defendê-la utilizando todo o seu prestígio junto da sociedade santista." (MUNIZ JR., 2008, p.33)

Maria Patrícia foi alvo de perseguição via imprensa e nas fofocas cotidianas, orquestradas por senhoras da elite, obstetrizes com formação na França, que tentaram desqualificar o trabalho de uma negra sem os 'civilizados' aprendizados. Interessante, no entanto, é saber que Maria Patrícia era venerada entre essa mesma elite, tanto que o médico Silvério Fontes foi quem saiu em sua defesa.

Em razão desse trabalho, chegou a ser considerada símbolo da Mãe Preta, a mãe dos santistas. No livro Santos Noutros Tempos, Costa e Silva Sobrinho conta:

"Maria Patrícia, solicita e dedicada, atendia todos sem distinção de classe, cor, posição social ou nacionalidade. Não fazia da profissão mercantilismo, mas encarava-a como puro sacerdócio. Ainda hoje, pelos seus cadernos de chamados, vemos com verdadeira surpresa que nos seus braços desabrochou para a vida uma geração inteira. Quase todos os filhos das pessoas mais qualificadas de então foram recebidos por ela." (SOBRINHO, 1953, p.89)

Nascida em 1838, desde os 9 anos de idade coube a Maria Patrícia amparar a mãe, pois o pai se matou no caminho do Jabaquara, em abril de 1847. Aos 19 anos, casou-se com Levino Fogaça. Fundou, em 1883, a Sociedade Espírita Anjo da Guarda. Morreu em 1903.

Maria Patrícia tornou-se, em 1951, nome de rua no Jardim Santa Maria, Zona Noroeste de Santos, entre a avenida Nossa Senhora de Fátima e o Horto Municipal. Tem, ainda, seu nome fixado na fachada da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) do Saboó.

Vovó Marcolina também foi uma negra dedicada a cuidar das pessoas. Durante 40 anos esteve ao lado dos doentes pobres na antiga Santa Casa de Santos, "inclusive do Pavilhão Sóter de Araújo (de tuberculosos)", conforme relata Muniz J. em Panorama do Samba Santista: "Marcolina da Conceição nasceu em um quilombo do estado de Alagoas, em 1868, e veio para Santos com 20 anos de idade, onde se casou com um cidadão português, tendo sido mãe de três filhos. Na condição de cozinheira começou a trabalhar na Santa Casa, a partir de 1908, quando também passou a dedicar-se aos internos daquele hospital no decorrer de muito tempo, mesmo depois dos 80 anos." (MUNIZ JR., 1976, p.66)

É mais uma pessoa negra de quem pouco se sabe. Mais uma 'homenageada' em placa de rua, dessa vez no bairro da Aparecida.

Já nos anos 30 e 40 do século XX, Muniz Jr. destaca as tias do samba, como Euclydia e Lidyonetta, pioneiras na Baixada Santista, e Neth de Lima, 'puxadora' de samba.

"Como as tias baianas eram as Matriarcas do Samba, eu criei aqui as Tias do Samba: Tia Inês, Tia Elvira (mãe do Dráuzio da Cruz) e as irmãs Tia Lidyonetta (nascida em 1900) e Tia Euclydia (de 1889), eram filhas de escravos. Fiquei com elas até o fim da vida. Tias Lidyonetta e Euclydia eram matriarcas do samba, mesmo. Estão nas origens do que eu falei do folclore negro. O que elas passaram na época de perseguição e resistência do samba é o que o pessoal de agora nem se interessa em saber." (MUNIZ JR., entrevista realizada em 05/08/2020)

Com essa disposição, em 1926, Euclydia e Lidyonetta estavam à frente do Baianinhas do Bonfim, que na década seguinte se tornaria o rancho Arrasta a Sandália Aí Morena. De acordo com Muniz Jr., o rancho ganhava as ruas com as pastoras trajadas de baianas, ao som do samba. Essa tradição teria acabado na década de 1950, com a oficialização do carnaval. As irmãs passaram a desfilar como baianas nas escolas de samba da cidade, à época a X-9, a Brasil e a Império do Samba.

Já a pernambucana Enetízia de Lima chegou a Santos em 1925, um ano após seu nascimento no Recife. Morou no bairro do Campo Grande até por volta de 1934, quando se mudou com a mãe para a Almirante Tamandaré, na Bacia do Macuco, o coração do samba. Como já citado, ali naquela avenida e "praticamente no mesmo endereço" nasceram as primeiras escolas de samba: X-9 (1944), Vitória (1946) e Brasil (1949). Mais tarde viria também a Império do Samba (1955). Desde criança, Enetízia conviveu em meio aos batuques e festejos carnavalescos, onde ficou conhecida como Neth de Lima. Começou a desfilar no Carnaval de 1939.

Em seu livro sobre o samba, Muniz Jr. registra diversas passagens contadas por Neth, como esta: "Em pleno carnaval de 1938, alguns estivadores haviam trabalhado num navio descarregando carvão, e depois do serviço, do jeito que estavam, fizeram um bloco de sujo e saíram às ruas empunhando um estandarte improvisado. Um gaiato qualquer, quando viu aquela turma toda suja de carvão, gritou: abram alas pros carvoeiros! – E o povo abriu mesmo." (MUNIZ JR., op.cit. p.62)

Do grito nasceu o Rancho Carnavalesco dos Carvoeiros, que animou a Bacia do Macuco até 1941, com a voz Neth soando entre a dos cantores: "Na época em que eu comecei, os cantores de rua cantavam no peito, isto é, sem microfone, pois era necessário cobrir os ritmistas. Não era mole cantar os três dias de carnaval, sem perder o tom da voz. Hoje em dia, puxar o samba é bem mais fácil, pois durante todo o desfile os cantores tem um microfone a sua disposição para puxar os sambas de enredo." (MUNIZ JR., op.cit. p.62)

A própria mãe de Neth de Lima foi uma 'tia' carnavalesca, Tia Inês, uma das muitas que ajudaram, desde o início, a manter a X-9 nas ruas. E foi atendendo a uma convocação da mãe que Neth cantou naquela escola, em 1947. Na época, além das batalhas de confetes, havia concursos diversos entre escolas e ranchos, nas proximidades da rua General Câmara e Martim Afonso.

Interessante que Neth ganhou a disputa concorrendo com outra cantora, Georgina, representante do Rancho Novo Horizonte. No depoimento registrado em Panorama do Samba Santista, ela afirma que foi a "prova de fogo mais dura" que enfrentou. Tão disputada que a comissão julgadora não conseguia decidir quem havia cantado melhor. Naquele instante, criaram um critério inusitado para a decisão: Neth cantou com a bateria do Rancho e Georgina, com a da X-9.

Vencedora, Neth declarou, conforme registro de Muniz Jr.: "Ganhei uma medalha, duzentos cruzeiros em dinheiro, e um par de sapatos. Mesmo assim, considero até hoje a saudosa Georgina a mais perfeita cantora de rua que a cidade já teve. Era um verdadeiro rouxinol. Rendo aqui a minha homenagem a ela." (MUNIZ JR., op.cit. p.63)

Poderíamos falar de várias outras mulheres, como: Alzira dos Santos Rufino, que durante anos foi uma das principais lideranças e ainda hoje é uma grande referência para a população negra da região. Em 1986, fundou o Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista. Em 1990, coordenou a Casa de Cultura da Mulher Negra que, entre as diversificadas atividades, oferecia assistência jurídica e psicossocial, principalmente às vítimas de violência doméstica e racial. Aliás, na Casa trabalhou, entre tantas outras negras, Djamila Ribeiro, filósofa, escritora, feminista e uma das 20 mulheres mais influentes do país em 2020, de acordo com a revista Forbes.

Poderíamos falar também de Joyce Fernandes, mais conhecida pelo apelido que recebeu da mãe, ainda na infância, como um escudo poderoso no combate ao bullying e ao racismo sofridos na escola: Preta Rara. Rapper, historiadora, escritora, feminista, defensora das mulheres 'GG' e ex-empregada doméstica, ela cunhou uma frase bastante simbólica, a mostrar como, no imaginário das gentes 'civilizadas', o passado persiste: "A senzala moderna é o quartinho da empregada".

A santista Preta Rara trabalhou como doméstica até 2009, inclusive durante o período em que cursava a faculdade. Conforme costuma contar, foi demitida por se recusar a comer restos de comida oferecidos pela patroa. Publicou esse relato em seu perfil nas redes sociais, pensando ser mais um desabafo. Para sua surpresa, em pleno século XXI, surgiram inúmeras histórias semelhantes: trabalhadoras obrigadas a comer suas refeições em quartinhos ou subir vários andares pela escada porque o 'elevador de serviço' estava quebrado, humilhações diversas.

Nas redes sociais, criou a página 'Eu, empregada doméstica', que também é o título do livro lançado em 2019.

A história registrada nas páginas da Revista Commercial

Pelos editais e anúncios nas páginas da Revista Commercial, por exemplo, era possível saber um pouco do cotidiano dos negros e de como eram tratados: vendia-se panos para escravos, oferecia-se recompensa por captura de fugidos e até mesmo aluguel de negros.

A seguir alguns exemplos de anúncios extraídos de edições de 1872:

"ALUGÃO-SE dois escravos, um cosinheiro para uma casa de família e outro um moleque que serve para copeiro ou para fazer outros serviços domésticos: nesta typographia da-se informações." (EDIÇÃO 117, p. 2)

"Deposito de panno de ALGODÃO – Rua Septentrional 31 – Neste deposito encontra-se, superior panno d'algodão de Minas, proprio para sacos, e para roupas de escravos, bem assim pannos d'algodão de diversas qualidades da fábrica nacional de Santos Aleixo." (EDIÇÕES 127 e 129, p. 3 e p. 4, respectivamente)

"Vende-se um sobrado bem acondicionado – rua da Praia n. 25. Vende-se tambem uma padaria com todos os accessorios e inaccessorios para semelhante estabelecimento, sete escravos e uma escrava para informações na mesma, padaria." (EDIÇÃO 144, p. 2)

“Acha-se fugido um escravo de nome Bonifácio, pardo escuro, cabellos crespos barba no queixo, tem signares de bexigas, altura mais que a regular oficial de pedreiro, e de trinta anos mais ou menos de idade. Quem o apreseender e entregar em Santos a José Carneiro da Silva Braga, será generosamente gratificado. Protesta-se com todo o rigor da lei, contra quem o tiver acoutado.” (EDIÇÃO 129, p. 4)

"Precisa-se de um escravo no hotel da Banca n. 5 para trabalhar na cosinha, paga-se bem." (EDIÇÃO 138, p. 4)

Essa última nota pode soar contraditória: pagar bem a um escravo. Como veremos nesta pesquisa, os chamados escravos de ganho eram comuns nos centros urbanos nas últimas décadas do século XIX. Trata-se de um dos arranjos do sistema escravista: o senhor autoriza o trabalho ou aluga o negro a terceiros. Em ambos os casos fica com parte do dinheiro recebido. É um arranjo de um sistema complexo, em época específica, nada tem a ver com 'escravidão branda'.

Outras ´leituras` do cotidiano de negras e negros

Há, inclusive, o caso do negro Thomaz, cujo pai havia sido escravo de Manoel Joaquim Ferreira, exaltado como 'grande comerciante' e proprietário da Casa da Frontaria Azulejada, na Rua XV de Novembro. No passeio do bonde, destaca-se a bela fachada e a construção original com o interior em formato de 'U' que, à época, permitia a chegada de barcos para descarregar as mercadorias do comendador, ele também um grande proprietário de escravos.

Muniz Jr. cita o artigo da historiadora santista Wilma Therezinha de Andrade publicado em A Tribuna, em 13 de maio de 1986, intitulado Caso do escravo Thomaz: episódio da liberdade:

“Aconteceu que, após a morte do comendador, o negro Thomaz foi libertado de acordo com o testamento, com a condição dele trabalhar para os herdeiros por um período de oito anos. Apesar de não ser mais escravo, Thomaz tinha obrigação de prestar serviços aos herdeiros do extinto comendador, o que fez durante quatro anos e meio. Entretanto, mesmo trabalhando, ele procurou livrar-se definitivamente do encargo para poder exercer a sua cidadania. Por isso, entrou com uma ação pública através de um advogado, ocasião em que foi feita uma avaliação de quanto valeria o tempo de serviço que faltava, uma vez que a lei que lhe concedia 'o gozo da liberdade' não anulava o seu trabalho para terceiros. Depois de longa demanda judicial, o negro Thomaz conquistou a condição de liberto através da ordem judicial, sendo que o processo foi encerrado em dezembro de 1872 e segundo conta a professora Wilma Therezinha, o caso 'revela as dificuldades de um escravo para alcançar sua liberdade. Isso sem contar o dinheiro que precisava para pagar sua avaliação. Não sabemos como ele o conseguiu, para comprar sua alforria; como pagou ao advogado, se é que foi pago, pois muitos defendiam os escravos gratuitamente. A alforria era isenta de quaisquer direitos, emolumentos ou despesas de acordo com a lei'.” (MUNIZ JR., 2008, p.44)

Nas páginas da Revista Commercial, assim como de vários outros jornais da época, havia notícias nas quais era possível 'ler' o cotidiano dos negros no que se refere à falta de proteção legal e à violência: desde assassinatos de senhores cometidos por escravizados no interior de São Paulo, embarques de ricas famílias e descrição da escravaria que as acompanhava, assim como denúncias de 'algazarras' que feriam o Código de Posturas, entre outros assuntos.

Uma nota que consta em sua edição de número 130 (27/07/1872) denunciava que diversas vendas na cidade estavam consentindo reunião de escravos à noite, "fazendo ainda extraordinária algazarra" (p. 1). Para reforçar, citava o artigo 86 do Código de Posturas, que assim se expressa:

"Os donos, ou caixeiros de armazém ou taverna, não consentirão que os escravos ahi se demorem por mais tempo do que o necessário para as compras. Os contraventores serão multados em 1$000 réis, e no duplo nas reincidências. Temos queixas de alguns visinhos destas cazas, e já que ninguem olha para isto, contentamos em transcrever o art. da lei. A moralidade publica exige providencias, e nós aguardamos o resultado dellas." (REVISTA COMMERCIAL, ed.130, 1872, p.1)

Por meio de uma longa notícia publicada na edição de 27 de junho de 1872, é possível enxergar que, dependendo do senhorio ao qual pertencia, o negro deveria receber diferente tratamento da força pública e polícia. É interessante notar como o que parece ser a defesa do escravizado é, na verdade, uma proteção à propriedade do escravista. Diz o texto intitulado Enthusiasmo policial:

"Ante-hontem á noute informam-nos que fôra prezo um escravo de pessoa conhecida desta cidade, tendo sido esbordoado porque opunha-se á ir a cadeia visto ter senhor, e dever a ele ser levado, ou á prezença da autoridade. Conta-se que ao passar a victima pela rua Nova ia já núa. Este triste espetaculo deve-se ao modo porque o delegado de policia, contra expressa determinação da lei, tolera que se effectuem prisões. Ou o escravo foi prezo por andar na rua fora de horas, ou por estar ebrio, ou finalmente por haver delinquido. No primeiro caso não poderia ter sido conduzido á cadeia porque o art. 64 do codigo de posturas terminantemente declara que os escravos, encontrados nestas condições, serão pelas patrulhas conduzidos á prezença dos senhores, ou de quem suas vezes fizer, e recolhidos á cadeia, se estes assim o exigirem; e o paciente não encontrou este recurso porque dizendo o nome de seu senhor não foi atendido. No segundo, deveria ser levado á prezença do delegado ou subdelegado, porque da embriaguez não conhece a força publica, mas a autoridade policial. No terceiro, igualmente cumpria que fosse conduzido á prezença da autoridade que mais próxima ficasse no lugar em que realizou-se a prisão, conforme preceitua o art. 12 Paragrafo 1º da lei n. 2,033 de 20 de Setembro de 1871 e ar. 33 Paragrafo 1º do regulamento de 22 de Novembro do mesmo anno. (...)." (REVISTA COMMERCIAL, edição 130, 1872, p. 1)

Na continuidade do artigo, o redator chama a atenção do juiz de direito da Comarca para que se atente ao delegado que está descumprindo a lei. Esse fato ilustra o poder que tinha o senhor de escravos diante das autoridades constituídas.

Nas palavras de Costa e Silva Sobrinho em Santos que José Bonifácio Conheceu (Revista de História, 1963, p. 71), o "elemento servil coalhava quase sempre as ruas da vila". A escrita é resgatada por Muniz Jr. e segue: "eram negros vendedores de aves, negras que ofereciam castiçais de latão e outros objetos de uso doméstico, pertenciam à mesma raça dos barbeiros, sapateiros e até carpinteiros e pedreiros." (MUNIZ JR., 2008, p.30-31)

O que parece ser a narrativa de um ambiente comum a vilas e cidades de outros tempos está longe de refletir cotidiano harmonioso. Muniz Jr. registra um dos "tristes episódios de escravidão" em Santos, ocorrido "lá para os lados" da bucólica fonte do Itororó – hoje simbolicamente ´preservada` na subida das escadas do Monte Serrat. O autor recorre a uma crônica publicada na Revista Commercial, em 21 janeiro de 1851 (p. 3), para destacar a crueldade da escravidão:

"Quem quizer convencer-se d'esta verdade, dê um passeio ao nascer do sol no lugar, denominado Itororó, e ali verá aparecer à essa hora um mísero escravo que mal pode caminhar, trajando camisa salpicada do quente sangue e que já tem sahido das feridas feitas pelo vergalho. – Batte-lhe o coração aproximando-se do pelourinho, onde de novo vae ser amarrado para receber uma nova ração, sempre nas mesmas feridas e as dores que lhe causarão as torturas do bárbaro e diano supplício soffocão a sua vóz, que, já se tornou rouca pelos gritos lamentosos. Mil vezes talvez já exclamou debaixo dos padecimentos do inescoavel castigo as palavras: 'Basta meu Senhor!'. Mas nada de compaixão por que este verdugo não está farto ainda de sua vingança, direi antes do sangue de seu semelhante. Entretanto é um homem como nós, cujo sangue jorra a relva, e a humanidade se cala.” (MUNIZ JR., op.cit. p.31)

Apesar do triste episódio, a fonte do Itororó, assim como a do São Bento, era local de idas e vindas dos escravos em busca de água. Aliás, as águas do Itororó canalizadas abasteciam o chafariz do Largo da Misericórdia, atual Praça Mauá, onde negros e negras vendiam seus doces. Muniz Jr. indica que, a partir de 1846, o local ganhou a denominação de Chafariz da Coroação em homenagem ao imperador D. Pedro II, que veio para as festividades de inauguração. O pesquisador aponta outro ponto de 'encontro':

"O antigo Largo da Banca, onde havia um mercado de pescado (Banca de Peixe), o Chafariz e o Trapiche da Banca também era ponto de venda de vários quitandeiros negros: Pai Lucas, Tia Benedita, Pai Queribita e outros mercadores, num alarde espalhafatoso.” (MUNIZ JR., 2008, p.29)

A expansão da cidade

Muniz Jr. cita a descrição feita por Júlio Pereira Caldas em O Porto de Santos, 1839-1939 (documento do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, sem data, conforme aponta Nota na p. 111 do livro de J. Muniz Jr.):

"A Cidade de Santos conservou o seu aspecto de vila ainda por muitos anos: ruas imundas e tortuosas, becos estreitos e anti-higiênicos, praças maltratadas, casario velhíssimo e vetustas igrejas, em estilo colonial, praias desertas ou verdadeiros pantanais pestíferos, onde, à noite, eram despejados os 'tigres' da época, e ao longo das quais se estendiam para o mar cumpridas pontes para carga e descarga dos navios." (MUNIZ JR., op.cit. p.28)

Acrescente-se a existência de cocheiras instaladas em várias ruas em função da utilização de mulas para puxar as carroças com cargas. Não havia energia elétrica e, nos últimos anos do século XIX, havia seis chafarizes públicos na cidade, nenhum com água encanada. Some-se a esses ingredientes o calor típico da região, rodeada de mangues e pântanos, e temos um ambiente propício às epidemias.

Ana Lanna indica que, em 1844, Santos enfrentou a primeira epidemia de febre amarela. A partir de 1850 a cidade foi assolada por ainda outras, incluindo novos surtos de febre amarela: foram a varíola (bexigas), o impaludismo, o tuberculoso, as sezões (malária) e a febre bubônica, cujo número de casos aumenta no final da década de 1880.

“A situação era calamitosa. Entre 1890 e 1900 morreram vítimas das epidemias 22.588 pessoas. Este número correspondia a mais ou menos metade da população da cidade.” (LANNA, 1996, p.69)

No acervo digital da Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS), órgão municipal, há um trabalho denominado Repertório de Documentos para a História da Escravidão em Santos (2011). Esse trabalho registra cerca de 2 mil negros e negras (entre crianças, adultos e idosos, escravizados e livres) enterrados no cemitério do Paquetá entre 1865 e 1888. Muitas dessas pessoas foram vítimas de tuberculose, febres e 'vermes'.

Medidas sanitárias só foram tomadas quando as epidemias começaram a atingir moradores da capital e a ameaçar a política de imigração dos europeus que vinham para trabalhar no porto e na lavoura.

O governo interveio e criou a Comissão Sanitária em 1892. Obviamente, os cortiços e habitações de pessoas mais pobres foram vistos como foco de doenças.

Segundo Lanna, a Comissão tinha poder de "vistoriar habitações, promover desinfecções, fiscalizar a limpeza de quintais e de terrenos baldios" e até de demolir. A autora acrescenta: "em Santos, como no Rio de Janeiro de Pereira Passos, a remodelação do porto veio acompanhada de uma política de intervenção urbana com forte cunho sanitarista e que acabava por excluir a população pobre." (LANNA, op.cit. p.72-73)

A autora chama a atenção para a política do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, cujo plano consistia em aliar ação sanitária e planejamento urbano, "conciliar as ideias sobre uma cidade ideal" às ações técnicas. É o que Lanna destaca por "higiene como ideologia", cujo objetivo é "conduzir o país à civilização":

“Essa perspectiva legitimava uma política repressiva e destruidora de formas de vida e associação sobretudo das classes trabalhadoras. Eram intervenções que, justificadas pela imperiosidade do progresso e legitimadas pelo saber científico, agiam sobre as cidades e seus habitantes, redefinindo seus espaços, e transformavam qualquer crítica a elas em manifestações do atraso, do arcaico, do não moderno." (LANNA, op.cit. p.79-80)

O processo de 'modernização' se dá com a negação do passado colonial e através da busca das formas 'civilizadas' e europeizadas de desenhar o espaço urbano.

As demolições começaram na década de 1860. Lanna indica que elas iniciam exatamente pelo local de fundação da cidade: o Outeiro de Santa Catarina. A partir dali prosseguiram apagando os pontos de referência coloniais, incluindo o Convento do Valongo, onde parte da área deu lugar à ferrovia. O porto também ganha novos contornos e seu primeiro trecho construído foi inaugurado em 1892.

Na virada do século XIX para o XX, a cidade começa a expandir seus limites. De um lado belas casas e palacetes, lojas, cafés, restaurantes, teatros e parques. De outro, a demolição ou abandono do sobrado colonial e das formas de vida nele estabelecidas, o surgimento dos cortiços e bairros populares. Separação das funções de trabalho, moradia e lazer são critérios para o reordenamento urbano, ao mesmo tempo em que promovem a segregação social:

"As tentativas de valorização do trabalho livre resultaram na desqualificação do trabalhador – sobretudo do nacional e do ex-cativo – e, em oposição, na visão idealizada do imigrante como agente civilizador. A desqualificação do trabalho e do trabalhador contribuiu para que o problema da escravidão pudesse, em teoria, ser resolvido por uma lei emancipatória e pelo fechar os olhos aos problemas específicos resultantes da herança escravista. Nesta medida, todos seriam iguais." (LANNA, op.cit. p.21)

Quilombos e refúgios

De acordo com o Recenseamento Geral do Império realizado em 1872, o Brasil contava 10 milhões de habitantes, 42% deles negros ou 'pardos'. Em Santos, os números do censo variam sempre próximos a 9 mil habitantes: algumas publicações citam 9.871, outras, 9.101. O número de escravizados varia entre 17% e 19% - há citações de que seriam entre 1.600 e 1.742 escravos.

Os dados do censo de 1890, já na República, também são imprecisos com relação à cidade. Registram população de 13.012 pessoas, ou seja, menor que em 1886, quando contavam-se 15.600 habitantes.

O município de Santos só realizaria seu censo em 1913, duas décadas e meia depois da Abolição: 88.967 habitantes, sendo cerca de 56% de homens e 44% mulheres.

Fato é que a quantidade de negras e negros, libertos ou fugidos, que circulavam pelas ruas de Santos só aumentava a partir do século XIX. Vinham como transportadores de cargas e por aqui ficavam. Chegavam atraídos pela possibilidade de trabalho nas promissoras atividades portuárias ou pela certeza de encontrar abrigo, com amparo oferecido por irmandades protetoras e apoio de membros da elite.

Esses fatores fizeram com que setores da sociedade favoráveis à libertação dos escravizados passassem a se organizar em conjunto com negras e negros. Eram cada vez mais recorrentes as notícias da existência de abrigos e esconderijos, tanto na área urbana quanto nas matas e fazendas. Neste contexto, surgem os famosos quilombos do Jabaquara e do Pai Felipe, que se desloca da Serra do Cubatão para a cidade na década de 1880.

Em Ventos do Mar, Maria Lúcia Gitahy registra como o historiador José Maria dos Santos, autor de Os Republicanos Paulistas e a Abolição (1942, p. 183), descreve o quilombo do Jabaquara:

"construíram de madeira, de palha, de taipa e de folhas de zinco numerosas barracas e habitações ligeiras de todos os gêneros. Abriram-se caminhos, criou-se um pequeno comércio de varejo e, como por encanto, surgiu da noite para o dia a mais desconchavada e pitoresca das cidades, toda cercada de roças, com o azulado fumaçar dos fornos de carvão vegetal a cobri-la perenemente." (GITAHY, 1992, p.34)

As autoridades provinciais consideraram o Jabaquara um 'escândalo subversivo':

"Um trem trouxe de São Paulo um delegado acompanhado por força numerosa. No entanto, as senhoras de Santos cercaram o trem tão logo este parou na estação, impedindo qualquer pessoa de desembarcar. O delegado, surpreso e embaraçado, tentou sem sucesso negociar. Os trabalhadores da ferrovia, por sua vez, engataram uma locomotiva do lado oposto do trem e enviaram-no de volta a São Paulo. Esta teria sido a última tentativa oficial de acabar com o abolicionismo em Santos.” (GITAHY, op.cit. p.34)

A criação desse quilombo foi iniciativa de homens da elite santista que se juntaram às causas abolicionistas, como Joaquim Xavier Pinheiro, Silva Jardim e Santos Pereira, que ficou conhecido como Santos Garrafão, nome dado também a outro local de abrigo a negras e negros. Vale chamar a atenção para o fato de que, tanto nas ações abolicionistas quanto na sua defesa, o destaque são para senhores e senhoras da elite. Nas histórias oficiais as informações de que José Bonifácio e Xavier Pinheiro, por exemplo, foram donos de escravos são enunciadas como simples dados biográficos menores, sempre encobertos pelos grandes feitos caridosos em nome da liberdade.

Para comandar o Jabaquara foi indicado um negro liberto sergipano chamado Quintino de Lacerda. Por essa relação estreita com a elite branca, Quintino foi bastante questionado e os historiadores que se debruçam sobre a vida do líder quilombola costumam destacar certa postura dúbia. É um aspecto importante que permeia a história do Quilombo do Jabaquara.

Outro quilombo importante em Santos foi o do Pai Felipe. Instalado anteriormente na Serra do Cubatão, transferiu-se para Santos na década de 1880, período de criação do Jabaquara. Aliás, Muniz Jr. considera Pai Felipe mais importante que Quintino de Lacerda. Abaixo está reproduzido um trecho da conversa de quase duas horas que o autor desta pesquisa teve com o jornalista, pesquisador e escritor.

"Quintino de Lacerda era um crioulo, o negro nascido no Brasil, ex-escravo da família Lacerda e, naquela época, muitos escravos recebiam o sobrenome dos proprietários. Foi liberto pela família Lacerda. Quando os abolicionistas de Santos – o pai do Chico Martins, Américo Martins dos Santos, era um deles – arrumaram aquele Quilombo do Jabaquara, precisavam de alguém para gerenciar e colocaram o Quintino de Lacerda lá. Era um negro forte, inteligente. Mas o Jabaquara não era bem um quilombo. Eram casas feitas de madeira e tal, porque quilombo era na mata, com água corrente. Mas já era um pessoal que vinha fugido ou liberto e o Quintino tomava conta. Já o Pai Felipe, quando ele fugiu do grande quilombo do alto da Serra, veio com um grupo de africanos. Ele tinha o rosto lanhado, com a marca da realeza, e aqueles negros que seguiam falavam no dialeto dele. Era considerado um rei africano." (MUNIZ JR., entrevista realizada em 05/08/2020)

Por ser um rei africano, Pai Felipe era respeitado e tratado como tal por todos os demais habitantes do seu quilombo. Por esse motivo, quando veio da Serra do Cubatão para Santos, não quis se submeter a Quintino de Lacerda. Instalou-se no sopé do Monte Serrat, onde corriam cachoeiras e o Rio do Soldado. Na região, atual bairro de Vila Mathias, estão a garagem da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), duas universidades e o Centro de Esportes do Município.

"Ali era uma mata, não tinha casa nenhuma, só o Estradão (hoje, Ana Costa). A cidade de Santos era de onde é hoje a avenida Rangel Pestana para o lado do Porto. Então, ali era mata e ele montou um verdadeiro quilombo, porque ele montou choça, tinha um trono de vime e os abolicionistas iam lá, à tarde, para ver o batuque que ele fazia. Tinha gente que reclamava do batuque, mas Pai Felipe tinha o prestígio com juiz, delegado e deixavam ele sossegado. Quando veio a Abolição (13 de maio de 1888) e Santos festejou durante três dias, Pai Felipe saiu do quilombo e foi pela Senador Feijó, que era uma estrada, até o Largo do Carmo. Ali, formou uma roda de samba, que envolveu negros e brancos. Depois, não se ouviu mais falar, porque cada negro tomou o seu caminho." (MUNIZ JR., entrevista realizada em 05/08/2020)

No livro Panorama do samba santista, Muniz Jr. refere-se a Pai Felipe como o Rei Batuqueiro e apresenta diferentes versões sobre a origem do velho africano. Em uma delas, baseia-se em anúncio do semanário santista O Comercial, de 14 de abril de 1859, para sugerir a possibilidade de Felipe ser um escravo fugitivo.

Diz o anúncio: "FUGIRÃO a Francisco Mariano Galvão Bueno, morador na Vila de Amparo, dois escravos, de nome Adão e Felippe; o primeiro é Congo de nação, 30 annos de idade mais ou menos, cor fula, estatura alta, tem dois dentes na frente abertos da parte de cima, signal de sua nação, não tem barba e tem outros signaes que por decência não se declarão senão quando for achado, foi escravo do falecido Antonio Manuel Teixeira, depois de Candido Bueno e ainda depois de Serafim Fontes Bueno, e está fugido há mais de dois anos; o segundo, é de nação Nagô, estatura menos que regular, cor preta quase fula, cara lanhada, idade 40 annos mais ou menos, tem pouca barba no queixo, fala abahianada, foi comprado a Mariano Ramos, veio do Rio, está fugido há 18 meses." (MUNIZ JR., 1976, p.26)

Em outra versão, Muniz Jr. recorre a Lendas e Tradições de Uma Velha Cidade do Brasil (1940), de Francisco Martins dos Santos, registrando dele o seguinte trecho: "Um negro de sessenta anos fortes, chefiava então os remanescentes do Engenho de Cabraiaquara, os últimos vingadores de Nossa Senhora das Neves; era o 'pai Filipe' como todos diziam; e 'pai Filipe', sabedor da madrugada de liberdade que raiava ali mesmo perto, na Santos que ele bem conhecia, foi também para o 'Jabaquara' com toda a sua gente e, como 'rei' que era, pelos trinta anos de domínio na floresta, ficou isolado, formando um segundo núcleo do 'Jabaquara', atrás do Monte Serrat. Era o mais curioso e o mais rude dos negros recolhidos; e, aos olhos dos visitantes que lá iam aos domingos, 'pai Flipe' desenvolvia os seus batuques, seu samba africano." (MUNIZ JR., op.cit. p.26)

Os negros ali refugiados trabalhavam como majoritariamente como carroceiros, ensacadores de café e na produção de chapéus e cestos de palha. O Quilombo do Pai Felipe passou a ser frequentado por populares e lideranças abolicionistas, que nos finais de semana se deslocavam para lá para ouvir batuques e dançar o samba.

"Quando havia luar, as danças aperalvilhadas prolongavam-se até à madrugada, repercutindo o soar dos atabaques por todos os recantos da cidade, pois o batuque era uma distração para os que procuravam aquele pitoresco recanto nos fins de semana. E, a exemplo do que ocorre hoje (temos leite de onça), nos momentos de pausa era distribuído quentão para todos, inclusive para os batuqueiros, que nessas porções estimulantes ficavam mais espiritados para saracotear no terreiro, rufar os adufes, agitar as cacimbas ou percutir os tambaques." (MUNIZ JR., op.cit. p.27)

Entre essas diferentes formas de abrigar fugitivos também se destacaram as irmandades, associações ligadas à Igreja, entidades profissionais (advogados e jornalistas, por exemplo) ou simpatizantes da causa abolicionista. Em Santos, por exemplo, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi fundada em 1652. No início, instalou-se na Matriz, na região dos Quarteis, e em 1665 foi transferida para a Capela de Santa Isabel, junto à Santa Casa, no antigo Largo da Misericórdia, hoje Praça Mauá. Muniz Jr. registra, em O Negro na História de Santos, um aspecto interessante dessa entidade protetora de negros e negras:

"Tanto os escravos como os alforriados podiam ingressar na confraria (bastava assinar com o sinal característico da cruz), entretanto, para poder tomar parte na Mesa Administrativa da mesma, tinham que saber ler e escrever." (MUNIZ JR., 2008, p.49)

"Os fugitivos eram então encaminhados, pela madrugada, através do Beco do Rosário (depois Rua Vasconcelos Tavares), subindo e descendo o morro até a imensa várzea do Jabaquara, onde estava localizado o quilombo chefiado pelo major Quintino de Lacerda." (MUNIZ JR., op.cit. p.51)

A Irmandade foi mantida até pouco tempo depois da Lei Áurea.

"Todavia, sob a alegação de que não havia mais sentido em se conservar o primeiro nome, uma vez que os escravos já estavam em liberdade, a partir de 1889, passou a denominar-se Irmandade de Nossa Senhora dos Homens de Cor. Naquele ano, o presidente da Província de São Paulo e o Bispado aprovaram o compromisso da irmandade, pois, segundo foi registrado, grande parte dos irmãos 'eram descendentes da raça negra africanos e mulatos'." (MUNIZ JR., op.cit. p.51)

Quintino de Lacerda

É verdade que Quintino tinha bom trânsito com essa elite. Era frequentemente elogiado por respeitados senhores que se diziam abolicionistas, como Silva Jardim. Elogios, é bom que se diga, carregados de preconceito e espanto com a 'capacidade' de um homem 'negro excepcional', como nessa fala de Silva Jardim registrada por Ana Lanna:

"O bom preto tornara-se garantia de ordem para a cidade, exercia o cargo de inspetor de quarteirão e era como tal muito estimado... Tinha todas as qualidades físicas de chefe, era modesto, gastava com os seus as suas economias, era humilde (não abraçava os líderes, brancos é claro, do movimento que iam visitá-lo), era bom pai e amava sua companheira... Prova que mérito mesmo intelectual não está só com letrados; porque ele vira claro sua missão, excelente negro! Demonstração palpável de que sua raça podia produzir tipos dignos." (LANNA, 1996, p.192)

Uma espécie de bate e assopra, destacando as habilidades físicas, ao mesmo tempo em que ressalta o fato de Quintino ser analfabeto. Ora, o que Silva Jardim queria dizer, na verdade, era algo que ficou no imaginário do branco civilizado: 'o bom preto', Quintino era o 'preto de alma branca'.

Sim, Quintino tinha bom relacionamento com os comerciantes, foi inspetor de quarteirão e liderou o Jabaquara. Foi arrendatário e administrador de Benjamim Fontana, imigrante que tinha propriedade de terras justamente nas cercanias da área onde fora instalado o quilombo. Participou de forças leais à República, na Revolta da Armada (1893), e foi condecorado como Major Honorário do Exército. Por esse esforço, foi homenageado e presenteado com um relógio de ouro, outro aspecto bastante ressaltado nas citações a ele.

Mas Quintino também organizou abrigos para os fugidos no Jabaquara. De acordo com Muniz Jr., em 1886, quatro anos após ser criado, o Quilombo do Jabaquara abrigava cerca de 3 mil pessoas. No entanto, calcula-se que aproximadamente 10 mil negros e negras vivam pela região, no espaço urbano, em casebres nos morros e áreas de mata e mangue. Esse número se iguala a estimativas de libertos e fugidos que estavam pela cidade e não apenas no quilombo. Também ajudou na organização de 'missões' para libertar escravos de fazendas no interior e atuou para garantir trabalho assalariado para ex-escravizados, principalmente no porto.

Eleito vereador em 1895, precisou recorrer à Justiça para garantir sua posse. Por ser analfabeto, os demais componentes da Câmara se recusaram a tomar posse. Tentou-se até fechar o parlamento municipal, mas a força pública garantiu que Quintino assumisse.

Os heróis, quando escolhidos pelos que se dizem 'civilizados', são sempre descritos quase como super-heróis e têm suas ambiguidades escondidas em discursos rapidamente propagados como verdadeiros.

"Apesar de sua trajetória abolicionista, Silva Jardim revelava certo incômodo com a presença ativa dos ex-escravos, com suas vestes e instrumentos toscos nas comemorações do 13 de Maio. A abolição era, para ele, parte da estratégia pela luta republicana e formação da nação." (LANNA, op.cit. p.192-193)

Aos demais, além dos interesses por trás das escolhas, não se admitem falhas. No caso de Quintino e de tantas negras e negros, o que se exige é a vida sem falhas, sem humanidade. Os discursos que provariam o contrário foram, desde o princípio, silenciados. Ainda hoje, a população negra precisa não apenas conquistar seu espaço, mas provar que é melhor naquilo que faz. Ou é julgada por ser negra, independentemente de seus conhecimentos e capacidades.

"Quintino envolveu-se na política das elites sempre como força mediadora entre elas e as classes trabalhadoras negras. Esse papel lhe conferiu destaque em momentos cruciais da política local. (...) Os cargos e funções a ele reservados tiveram sempre uma função coercitiva: inspetor de quarteirão, major do exército, inspetor sanitário. Entretanto, estes cargos não lhe garantiram a propriedade da terra e moradia na área do antigo quilombo." (LANNA, op.cit. p.194-195)

O terreno onde Quintino de Lacerda morava, no Jabaquara, pertencia ao imigrante italiano Benjamim Fontana, propriedade essa que era questionada pelos empreendedores Cândio Gaffrée e Eduardo Guinle, entre outros interessados, principalmente com o início de obras de infraestrutura na cidade. Logo após a Abolição, no mesmo ano de 1888, veio a autorização para a expansão do porto e essa batalha se intensificou. O que era quilombo deveria ceder lugar à pedreira que forneceria material para as modernizações. O próprio Benjamim Fontana passou a reivindicar sua área.

"A tentativa de retirada de Quintino de Lacerda daquilo que poucos anos antes tinha sido considerado seu território e onde ele ainda residia, mantendo forte ascendência e liderança sobre os antigos moradores, todos negros, revela outro foco do conflito. O antigo comandante do quilombo passou a ser um incômodo perante as novas possibilidades de uso e exploração destes terrenos. E isso parecia agora, já na virada para o século XX, mais importante do que a necessidade de garantir ordem para a cidade, reprimindo os 'ímpetos naturalmente bárbaros da negrada'." (LANNA, op.cit. p.211)

Quintino de Lacerda morreu em 10 de agosto de 1898, aos 43 anos. No dia seguinte, de acordo com os jornais A Tribuna do Povo e Diário de Santos, uma multidão tomou as ruas para acompanhar seu enterro no cemitério do Paquetá. Os jornais estimam que entre 800 a 2 mil pessoas seguiram o bonde especialmente preparado para a ocasião.

Abolicionismos e resistências

Contam os cronistas e memorialistas que Santos comemorou a abolição da escravatura durante oito dias, num festejo que envolveu toda a população. Os quilombolas do Pai Felipe saíram em batucada. Os do Jabaquara festejaram e viram seu líder Quintino de Lacerda ser condecorado Major Honorário da Guarda Nacional em razão de ter organizado e comandado, em 1893, já na República, um batalhão de soldados 'voluntários' contra a tentativa de deposição do presidente Marechal Deodoro na ocasião da Revolta da Armada (1891-1894), no Rio de Janeiro.

É muito provável que, paralelamente aos festejos pela Abolição, as elites abolicionistas já traçassem planos republicanos, ainda que não faltassem defensores do fim da escravidão, mas com a manutenção da monarquia.

Recorremos a mais um artigo do Dicionário da Escravidão e Liberdade, desta vez escrito por Walter Fraga, intitulado Pós-Abolição: o dia seguinte:

"O Treze de Maio fez parte dos embates que vinham se agudizando desde pelo menos a década de 1870, e que dividiram a população ao fim da escravidão e à maneira como a sociedade deveria ser reestruturada depois de abolido o cativeiro. Esses embates projetaram nas elites do país o medo de que o fim da escravidão pudesse aprofundar conflitos que pusessem em questão as hierarquias e os lugares sociais e raciais que então alicerçavam a sociedade brasileira." (FRAGA, 2018, p.351)

Talhada nas estratégias de readaptação exigidas pelo sistema econômico baseado na mão de obra escrava, ao perceberem as crescentes manifestações pela libertação total dos escravizados, as elites trataram de construir novos discursos e novas estratégias na defesa dos seus interesses políticos e econômicos, pautados sempre pela construção de uma nação civilizada.

Assim, não é possível falarmos de um Movimento Abolicionista: são vários e repletos de arranjos que envolvem, inclusive, negras e negros. Não raro esses arranjos soam paradoxais. A uns, são arranjos necessários para manter a vida fértil dos negócios. A outros, fundamentais para a garantir a sobrevivência.

O desejo de liberdade fez com que negras e negros integrassem as lutas abolicionistas ao lado de lideranças brancas, inclusive como protagonistas, mesmo quando não praticavam suas ações vislumbrando 'uma Abolição', e sim pelo desejo de liberdade.

Assim foi o caso dos caifazes liderados por Antônio Bento, advogado nascido em São Paulo, que conviveu com Luiz Gama e tornou-se impetuoso defensor da libertação dos escravizados, uma importante liderança abolicionista, sobretudo após a morte de Gama, em 1882. Os caifazes foram considerados o grupo mais radical nas lutas pela libertação da população escravizada. Reuniam-se em Santos e no planalto com a tarefa de irem até outros quilombos, refúgios e fazendas para libertar negras e negros, garantindo proteção até a chegada na Baixada Santista.

Foi o caso do preto Pio, que trabalhava como estivador e era voluntário. Conta-se que, por volta de 1870, estava à frente de um grupo fugido de fazendas de Salto, Capivari e Itu, de onde partiram rumo ao Quilombo do Jabaquara. Foram interceptados na região de Zanzalá, ponto mais alto em Cubatão.

Muniz Jr. registra o episódio pela visão dos militares, com base em trecho extraído do segundo volume de História do Exército Brasileiro (1972, volume 2), ressaltando os 'sentimentos abolicionistas' do alferes que os interceptou. Não deixa de ser um registro interessante, que ajuda a compreender a luta dos escravizados por liberdade.

"Um acontecimento retratando o estado de espírito dos militares ocorreu com o alferes Gasparino Carneiro Leão, mandado à frente de um contingente para interceptar a coluna de escravos fugitivos que passava pelo desfiladeiro de Santos Amaro, destino a Santos, local de refúgio seguro. Chegando ao alto da ladeira, avistou a turba, descendo para o fundo do vale. Destacando um anspeçada [soldado, praça], conhecido pelos seus sentimentos abolicionistas, a fim de aconselhar os extenuados perseguidos a debandarem para a mata adjacente, foi recebido com desconfiança pelo chefe dos escravos, preto Pio, que, ignorando os generosos intuitos do alferes Gasparino, foi ao encontro do mensageiro e matou-o com uma foice. De imediato, os soldados atiraram sobre o escravo, que caiu morto. O alferes, nobre alma, não consentiu na chacina dos infelizes, dispersos e apavorados. Voltou para S. Paulo, respondeu a Conselho, absolvido." (MUNIZ JR., ANO, p.61)

Por essa abordagem, vê-se como o protagonismo da população negra foi encoberto por uma história 'do abolicionismo' sem plurais. Essa história ressalta, sempre é bom repetir, a 'benevolência' dos brancos que a defendem num discurso bem construído.

O cenário volta-se aos negócios internacionais e destoa do sistema escravista, principalmente após a proibição do tráfico negreiro, em 1850 – a lei daquele ano foi a que 'pegou', já que a de 1831 havia sido solenemente ignorada. A legislação, obviamente, não significou o fim da escravidão. Persistiu o tráfico interprovincial. Mesmo assim, os fazendeiros alegavam não haver mão de obra suficiente para a lavoura.

Parece óbvio perguntar: com a quantidade de negras e negros livres e a serem libertados, como não haveria mão de obra? Na data da Abolição, estima-se que 700 mil escravizadas e escravizados ganharam a liberdade no Brasil. Por que não lhes oferecer emprego assalariado?

Além da crueldade da escravidão, o Brasil jamais investiu na alfabetização da população negra. Portanto, o argumento da 'desqualificação' para o trabalho encaixava-se perfeitamente no discurso das elites. Outro fator está no modelo de sociedade pretendida, europeia, branca, 'civilizada'.

Tanto que, na disputa política sobre o fim do trabalho servil, surgem 'ilustres' como o senador Vergueiro e o deputado José Antônio Saraiva, ex-presidente da Província de São Paulo, que se sentem prejudicados com tais ideias libertadoras e solicitam a intervenção do governo para incentivar a vinda de imigrantes. O senador, aliás, mantinha desde 1852 a empresa Vergueiro & Cia., com negócios em Santos direcionados para trazer colonos para as lavouras do interior - para Campinas, Limeira e Jundiaí, entre outras localidades.

Em 1856, o governo decidiu conceder crédito para 'nova' colonização e montou a Central de Colonização. Acostumados no trato com as escravizadas e escravizados, fazendeiros – incluso o próprio Vergueiro – passaram a enfrentar a resistência e a revolta de colonos, que exigiam melhores condições de trabalho e vida.

Os paradoxos são notados nas ruas e instituições de Santos, onde vários membros da elite assumiram posições abolicionistas, inclusive aqueles que até então eram proprietários de escravas e escravos, como José Bonifácio, do qual já falamos, e Xavier Pinheiro, vereador, um dos fundadores da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro e dos principais articuladores da criação do Quilombo do Jabaquara.

A historiografia destaca, ainda, Francisca Amália de Assis Faria, considerada a primeira mulher a refugiar negras e negros em sua propriedade. A santista Anna Benvinda da Silva Bueno, casada com Martim Francisco Ribeiro de Andrada Filho, sobrinho de José Bonifácio, comandava, em São Paulo, por volta de 1870, a Sociedade Emancipadora, que abrigava escravas e as encaminhava para Santos. Havia também a Legião da Mocidade Abolicionista e a Boêmia Abolicionista.

Muniz Jr. relaciona o nome da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro à data "em que foram libertados inúmeros escravos em Santos, antes mesmo da proclamação do decreto imperial de 1888" (2008, p. 59). De fato, as associações promoviam verdadeiros eventos para entregar cartas de alforrias. A data citada refere-se a um desses acontecimentos, ocorrido em 1886, que teria envolvido a população em celebração pelas alforrias anunciadas. No sucesso desse evento pode estar a história que frequenta o imaginário da cidade da 'Caridade e Liberdade': naquele dia teria acontecido a abolição da escravidão em Santos, três anos antes da Lei Áurea.

Vera Lucia Alba Rei Dias, autora da dissertação de mestrado Uma Associação Abolicionista na Cidade de Santos: Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro – 1886 (2014), confirma a movimentação popular naquela data, mas contesta a existência de lei municipal abolicionista.

"O exame das atas da Câmara de Santos indica que ocorreram sessões nos dias 23 de fevereiro de 1886 e 24 de março de 1886, não tendo havido sessão no dia 27 de fevereiro de 1886, circunstância que sepulta, de vez, a propalada ocorrência de edição da lei. A rigor, na cidade de Santos, não houve qualquer movimento do órgão em tal sentido. Ademais, não seria possível à municipalidade produzir tal norma jurídica, haja vista as disposições legais vigentes à época." (DIAS, 2014, p.07)

Certo é que as ações abolicionistas tomaram as ruas, como descreve Maria Lucia Caira Gitahy em Ventos do Mar, tendo como referência o santista Francisco Martins dos Santos e seu livro História de Santos (1986, vol. 2):

"Tanto assim que ocorreram ações populares como, por exemplo, o resgate de dez negros que haviam chegado a Santos dentro de pipas de vinho (com a conivência dos funcionários da ferrovia) e ficaram escondidos na casa de Geraldo Leite, um despachante da alfândega: 'dois capitães do mato, acompanhados de numerosa força policial autorizada até a violência pelo chefe de polícia de São Paulo', conseguiram capturá-los." (GITHAY, 1992, p.34)

A autora prossegue, afirmando que a fuga fora planejada pelos abolicionistas e quando a carroça com os capturados chegou na estação de trem, "cerca de 500 populares aguardavam a sua passagem".

Ela recorre mais uma vez a Francisco Martins dos Santos: "surgiu então um motim popular e o cidadão Fontes, distinto santista e excelente capoeira repentinamente derrubou em rasteira os soldados da captura, enquanto o povo entre brados confundia-se com eles." (GITHAY, op.cit. p.34)

É fundamental destacar que, mesmo tendo sido tratado como 'mercadoria' - escravas e escravos constavam em inventário, eram utilizados como moeda de troca etc. -, escravizadas e escravizados jamais foram passivos. Resistiram e se rebelaram de diferentes formas, em diferentes épocas. Ainda que diante do trabalho forçado, das condições insalubres e da crueldade dos castigos, e que alguns desses caminhos tenham sido por meio de arranjos ou acordos com senhores escravocratas ou comerciantes, não é possível tratar tais atitudes como símbolo de passividade, muito menos como síntese do sistema escravista.

Os negros e negras do quilombo queriam um local para viverem livremente. Porém, mesmo nas relações de trabalho, havia incômodo e conflitos. Os negros arregimentados para trabalhar no porto deparavam-se, cada vez mais, com a mão de obra estrangeira, que já vinha com noções de categorias operária. Após longo histórico de trabalho escravo e uma abolição que em nada lhes recompensou, boa parte dos negros e negras libertos ainda lutavam pela sobrevivência. Resultado: por diversas vezes foram confrontados ao serem considerados 'fura-greves'.

"Na greve do porto de 1891, os portugueses e espanhois, a maioria dos trabalhadores grevistas, foram substituídos por negros capitaneados por Quintino de Lacerda. Este episódio bem demonstra a rede de relações pessoais e de dependência a que estavam submetidos os trabalhadores." (LANNA, op.cit. p.217)

Maria Lúcia Gitahy afirma que o pessoal arregimentado para 'furar' a greve de 1891 trabalhava nas pedreiras do Jabaquara e aponta no movimento o uso ideológico da questão da 'raça' e a preparação de um 'esquema de emergência' que irá se consolidar em paralisações que ocorreram nos primeiros anos do século XX.

"As condições de trabalho nas pedreiras do Jabaquara eram ainda mais difíceis que no próprio Porto – salários baixos e irregulares, sistema de vale e armazém etc. –, tornando estes trabalhadores muito vulneráveis: em 1905 e 1908 eles foram forçados a substituir seus colegas no Porto. Tudo indica que este 'esquema de emergência' ainda estava em montagem em 1891, num momento em que o destino dos 'egressos' da escravidão estava em processo de definição.” (GITAHY, 1992, p.80-81)

"Nesta primeira grande greve do período, a utilização ideológica do abolicionismo é fundamental para promover aquilo que os jornais portuários tão enfaticamente denunciam como a 'divisão dos trabalhadores por raça'. A escravidão, instituição coetânea e muito ocultada, fornece os 'efetivos' para 'furar' a greve assim como um rol de justificativas ao 'ex-herói' abolicionista Quintino de Lacerda. Os exportadores alcançam êxito ao apresentar o conflito grevistas-fura-greves como 'preconceito de raça' de trabalhadores imigrantes a uma população com experiência recente na luta abolicionista. A manobra contribui para justificar o isolamento e a repressão dos grevistas." (GITHAY, op.cit. p. 81)

CAPÍTULO II

Tempo que se revela

As lutas deixaram heranças, que vão além de nome de ruas e praças Reavivar memórias e narrativas é continuar a resistir

Personagens e narrativas

O bairro do Macuco

O bairro do Macuco merece destaque na história da população negra em Santos, em qualquer tempo que se olhe para a região. Foi um dos primeiros a abrigar as classes pobres, as pretas e os pretos libertos, quando esses foram expulsos pelas transformações urbanas e ações de higienização e saneamento na cidade.

Foi também um dos primeiros bairros a reunir trabalhadores de baixa renda, de pescadores a portuários, que habitavam chalés e até casebres de palha.

No Macuco nasceram as primeiras escolas de samba, praticamente no mesmo endereço, a Avenida Almirante Tamandaré, como descreve Muniz Jr. em Panorama do Samba Santista.

"No prédio número 38 da rua Almirante Tamandaré, onde ficava a sede do Santos Dumont F. C., apareceram três agremiações do mundo do samba local: a X-9, em 1944, seguida da Vitória (1946) e depois da Brasil, em 1949, sendo que duas delas continuam firmes até hoje, mantendo a tradição do Macuco que, desde meados da década de 1940, devido à emergência dessas escolas, passou a ser chamado Bairro do Samba.” (MUNIZ JR., 1976, p.32)

Há muita história a ser resgatada, considerando que no dia a dia, o sambar também significava resistir, enfrentar perseguição policial: 'pretaiada' vagabunda, malandra, remexendo ao som de uma música 'marginal'. Dizem que até um 'vulcão' entrou em 'erupção' na rua Dona Ana Carvalhais (atual Almirante Tamandaré). Aconteceu no final do ano 1896:

"quando uma sonda exploratória que perfurava os terrenos entre o canal que dava acesso ao porto e aquela via, ao atingir 17 metros de profundidade, fez com que gases se desprendessem, lançando para cima uma impetuosa labareda, numa altura de aproximadamente 8 metros, acompanhada de um apito que assustou muita gente. E a primeira informação que correu foi a de que aquele 'fenômeno geológico' se tratava de um vulcão. E o povo não cansou de presenciar o estranho e estupeficante espetáculo, pois do orifício do outeiro ali existente, saía uma labareda de fogo que produzia um ruído estridente e assustador.” (MUNIZ JR., 1976, p.31)

Durante caminhada pelo bairro, em 24 de outubro de 2020, o autor desta pesquisa não encontra muitos vestígios da alegria que marcou o Macuco. A padaria do Pepinho, ou Padaria Flor, naqueles dias esvaziada por causa das restrições impostas pela pandemia, foi importante ponto de encontro desde 1930. Foi fundada pelo espanhol José Rodrigues, conhecido como Pepe, mas hoje é o filho José Leonardo que está à frente dos negócios.

Aliás, Pepinho nasceu dentro da padaria, em 1967. Viu e ouviu muita história, pois o endereço do comércio durante anos foi uma espécie de ponto de parada obrigatória para sambistas, doqueiros e fofoqueiros. Dali era possível ver a batalha dos estivadores para garantir o dia durante a distribuição de trabalho nos navios. Inclusive, de acordo com Pepinho, os pagamentos eram feitos em bares das proximidades, onde encarregados chegavam com caixas cheias de envelopes de dinheiro. Da Padaria Flor era possível ver e ouvir os comícios do Partido Comunista que, durante a Ditadura Militar, aproveitava o dia de pagamento da estiva para atrair mais ouvintes e seguidores.

Quando Sidney Alves da Silva entra na padaria para um 'rápido cafezinho', torna-se por pouco tempo também um contador de histórias do Macuco. Nascido no bairro, em 1954, lembra que, até meados do século XX, ou o início dos anos 1970, o cais chegava até bem próximo da Bacia do Macuco, o restante era mangue. As residências eram chalés. Entre os canais 5 e 6 ficava o Areião. Entre o 5 e o 4, o Pau Grande.

Na prosa informal com Pepinho e Sidney, o pesquisador fica sabendo que o nome Pau Grande surgiu quando as madeiras usadas como estacas no cais passaram a ser descartadas naquela área. O Areião também apareceu em função de sobras da construção do cais, que na época chegava até ali – da Bacia do Macuco saiam e chegavam barcos de pescadores e de transporte de mercadorias. A modernidade que havia empurrado a população para os loteamentos cada vez mais se expandia e o porto alongava seu território.

O cais, agora, é distante cerca de 500 metros da Bacia, tomada por lodo e sujeira. Não há barcos, nem crianças se divertindo em saltos arriscados na água. A visão do porto está encoberta por uma sequência de construções: as enormes sedes de um moinho e de uma exportadora de sucos, a larga avenida, os trilhos de uma ferrovia e a murada que desde o início da tal modernização separou o porto da cidade. Não há mais barcos há muitos anos.

A escola de samba X-9 mudou sua sede. Ainda se ouvem rodas de samba, mas com menos frequência. Em nada se parece com o Macuco por onde, desde a década de 1920, passaram ranchos como o Arrasta Sandália Aí Morena, das tias Euclydia e Lidyonetta, pioneiras baianas. Nada parecido com o cenário que se tornou famoso pelos gingados das escolas de samba X-9, Brasil, Vitória e Império do Samba, e pelo reconhecimento de negros bambas, mestres como Dráuzio da Cruz, Manezinho e Daniel Feijoada.

Em entrevista para esta pesquisa, o Mestre Sombra, ou Roberto Teles de Oliveira, sergipano que chegou em Santos em 1962 e morou, entre outros lugares, na Almirante Tamandaré, relembrou algumas histórias vividas no Macuco:

"O Macuco era um bairro bem movimentado, porque o cais estava com toda a força e o Macuco, com as escolas de samba (X-9, Império do Samba, Brasil) era uma movimentação muito forte. Muito armazém de café, porque o café era trazido das fazendas e preparado nesses armazéns: fazia-se todo serviço de especificar o tipo de café, para depois ir para o porto." (MESTRE SOMBRA, entrevista realizada em 01/09/2020)

"A coisa interessante é que a Bacia do Macuco era famosa e ali se concentrava uma turma que fazia a Bacia se tornar famosa. A Linha Forte Augusto – tinha a linha de uma máquina que passava por ali – e tinha um pessoal que escondia uma série de coisas, pra nas horas que queriam vender. E você atravessar aquele pedaço à noite era perigoso. Isso na década de 1960. Agora, tinha um negócio interessante na vagabundagem da época: sujeito estava querendo fazer um ato negativo, se via uma criança, ele parava. Disfarçava, deixava a pessoa passar. Hoje, é diferente, o cara te encara, encara todo mundo e vai pra cima.” (MESTRE SOMBRA, op.cit.)

Em conversa ao telefone, Muniz Jr. também falou sobre as características do Macuco:

"Ali na Almirante Tamandaré, eu ainda peguei a vala a céu aberto, tinha uma ponte de acesso, mas do canal para o fundo, chamava-se Pau Grande, não tinha armazéns, era tudo mangue, praia (até a Ponta da Praia, assim). Então, eram só casas de pau a pique, forradas de folhas de coqueiro. Era uma pobreza danada." (MUNIZ JR., entrevista realizada em 05/08/2020)

"As escolas de samba surgiram ali, porque eram formadas pelas camadas mais baixas da população, analfabetos, semianalfabetos. A Bacia do Macuco era um bairro portuário, de trabalhadores braçais. Naquela época, as escolas de samba tinham empregadas domésticas, cozinheiras, lavadeiras, trabalhador braçal, malandro, prostitutas, mulheres de cabaré, moças de família, porque dentro da escola havia respeito. Inclusive, o marginal que estava dentro da escola fiscalizava: se o cara mexesse com uma mocinha ou arrumasse confusão, já apanhava ou era retirado. Então, os caras pra entrar na escola de samba, tinha que ser bom mesmo, de tamborim, batuque.” (MUNIZ JR., op.cit.)

A Vila Mathias

Em outro bairro pioneiro da cidade, a Vila Mathias, o líder quilombola homenageado é Pai Felipe, destacado com o Dia do Samba, comemorado em 28 de novembro. Não há busto. Os discursos são em números mais reduzidos, abafados por baterias e integrantes de escolas de samba da cidade. Uma placa cravada nas ruínas que 'adornam' os fundos da garagem da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) é o que resta da memória do 'rei batuqueiro', como denominou Muniz Jr.

Para ele, conforme já dito, Pai Felipe era um soberano africano, identificado como tal pelo rosto lanhado, "sinais da sua nobreza quando em solo africano". A placa é a única referência possível de ser vista durante um passeio pelo bairro, apesar de as visitas estarem suspensas, em função da pandemia.

O morro ao fundo foi bastante recortado e atravessado pelos túneis que ligam o Centro Histórico, onde nasceu a cidade, com as praias mais aprazíveis, de extenso jardim e larga faixa de areia, passando por bairros de classes média e alta. As matas já não escondem as moradias nas encostas.

Na região que abrigou o Quilombo do Jabaquara, qualquer identificação daqueles tempos é praticamente impossível, ao menos enquanto se percorrem algumas ruas. Vale lembrar que a área foi remexida para a implantação da pedreira. A construção dos túneis, a ocupação habitacional e as intervenções urbanas alteraram a paisagem. Por ali, Quintino de Lacerda dá nome a uma rua e foi construído o Centro de Treinamento Rei Pelé, do Santos Futebol Clube, esse instalado ao lado da Santa Casa de Misericórdia. Essa, em prédio imponente, nada tem a ver com as construções pioneiras que ficavam no Centro Histórico de antes. Inclusive ruínas de uma dessas antigas sedes do hospital podem ser vistas no sopé do morro, do outro lado do túnel, na região central.

Perambulando por esses espaços urbanos 'visíveis', percebe-se os locais de invisibilidade que são projetados para negras e negros: as histórias de lideranças ou pessoas representativas para essa população 'cabem' somente em placas de ruas. Alguns exemplos: Antônio Bento (Vila Mathias), Maria Patrícia (Zona Noroeste), Luiz Gama, Eusébio de Queiroz e Dráuzio da Cruz (Macuco), e Tarquínio Silva (Marapé).

"A política que começou a ser implantada em Santos, em 1893, pela Comissão Sanitária do governo estadual tinha em relação à questão da habitação uma linha mestra: impedir o adensamento. Em outras palavras, eliminar cortiços da área central da cidade. Sendo que se entendia por cortiço qualquer tipo de habitação que não fosse unifamiliar." (LANNA, 1996, p.118)

"Os limites físicos da cidade só foram alterados em fins do século XIX com as novas características que ela foi gradativamente assumindo e com o decorrente crescimento populacional. Foi então que se incorporaram novas áreas em direção às praias e também para o lado leste. A expansão da cidade em direção ao planalto cessou no momento de implantação da ferrovia. A solução para o comércio deixou de exigir a parada em Cubatão." (LANNA, op.cit. p.50)

Como ressalta a autora, o que fazer com a classe pobre e trabalhadora era questão secundária para a Comissão Sanitária. O projeto de higienização pretendia 'limpar' os pobres do que se planejava ser a 'cidade ideal'. Os diagnósticos dos sanitaristas apontam o espaço urbano - o centro - como foco principal da febre amarela. Automaticamente, os cortiços foram considerados focos de doenças. Estava anunciada a guerra aos cortiços.

"Se os cortiços eram a forma característica de habitação popular nas grandes cidades brasileiras deste período, em Santos eles primavam pela abundância e precariedade, constituindo a fortuna de alguns, os precários meios de sobrevivência de outros e a causa das péssimas condições de vida da imensa maioria da classe trabalhadora, negra ou branca." (LANNA, op.cit. p.118)

Apesar da precariedade abundante, os cortiços eram fonte de renda para pequenos, médios e até grandes comerciantes, que exploravam os habitantes das moradias coletivas. Proprietários cobravam aluguéis e até a prestação de serviços como forma de pagamento, sem oferecer qualquer conforto, muitas vezes sequer as mobílias, nada além da construção pouco arejada.

A cidade 'moderna' buscou os seus caminhos. Pelos trilhos dos bondes e pela abertura das primeiras avenidas, Conselheiro Nébias e Ana Costa, os ricos tomaram o rumo das praias que hoje conhecemos, não mais aquele misto de lodo e lixo e porto. As referências aos tempos coloniais ficavam para trás.

"Os anos 90 do século passado [séc. XIX, 1890] marcaram o início da ação de desadensamento do centro e o aparecimento dos primeiros loteamentos previstos para a classe trabalhadora. Loteamentos estes de iniciativa privada e aliados à expansão da rede de transportes urbanos que era explorada pelos proprietários dos terrenos. Evidentemente a população moradora dos cortiços nunca, ou muito raramente, teve condições financeiras de adquirir estes lotes que foram comprados por uma crescente camada urbana de servidores públicos e empregados qualificados, muitos deles pertencentes aos quadros da Companhia Docas." (LANNA, op.cit. p.98-99)

A venda de lotes garantia a infraestrutura do bonde e da iluminação, até alcançar a praia, onde surgiam as suntuosas moradias. A cidade cresceu também para o lado, na direção oposta a Cubatão, ultrapassando os limites do antigo núcleo dos Quarteis. Mais especificamente para a região considerada suburbana que dará origem ao Macuco, por exemplo.

"A Vila Mathias consolidou-se como bairro, próximo ao centro, de habitações populares cortado pela bela, extensa e reta Avenida Ana Costa, nome da esposa do empreendedor. Não foi o único bairro que surgiu para fornecer condições de moradia para uma classe trabalhadora, que saindo dos limites da pobreza absoluta procurava sedentarizar-se na cidade adquirindo novos padrões de vida. A vila Macuco, por exemplo, era bairro predominantemente de trabalhadores do cais. A partir de então encontramos nos processos criminais vários trabalhadores que, saindo dos bairros mais centrais, vão pegar o bonde para jogar cartas e visitar amigos nesses bairros.” (LANNA, op.cit. p.100-101)

Os morros também foram afetados por essas transformações, inclusive o do Jabaquara, onde as brigas pela propriedade foram acirradas. "Tradicionalmente ocupados pelos trabalhadores pobres da cidade foram objeto de intensa disputa e litígio, envolvendo a definição de limites e legítimos proprietários e uma nova necessidade de regularização das posses. Benjamim Fontana, um dos membros da elite local, negociante, mas não ligado aos grandes negócios do café, com seus capangas, expulsou com violência os antigos moradores do Jabaquara. Esqueceu rapidamente os instintos humanitários que o levaram a ceder as terras para instalação do Quilombo." (LANNA, op.cit. p.101-102)

Para resgatar e manter vivas as memórias, histórias e narrativas, precisamos transitar mais e expor as cidades invisíveis e suas gentes. Evitar que sejam apagadas pelos frequentes escombros das demolições frequentes, em nome da 'cidade moderna e civilizada'.

"Existem espaços não construídos que remetem à memória e que são fundamentais para criar a sensação de pertencimento, direito a lugar. Portanto, a cidade é resultado direto da experiência dos homens que a habitam e fruto de realidades sociais, não importando que estejam no mesmo lugar e tenham, ao longo dos séculos, o mesmo nome." (LANNA, op.cit. p.25)

Capoeira e pernadas

"Não posso falar de capoeira sem falar do negro. Não posso falar do negro sem falar da África. E não posso falar do africano no Brasil sem falar da escravidão." (MESTRE SOMBRA, entrevista realizada em 01/09/2020)

As frases ditas pelo Mestre Sombra sintetizam três aspectos das estratégias para o silenciamento e o aniquilamento da população negra. Primeiramente, a separação da sua origem – são arrancados da terra, amarrados, trazidos para local desconhecido e forçados ao trabalho pesado. Em segundo, o apagamento da cultura – em solos desconhecidos, são separados de familiares e membros da mesma etnia, são perseguidos por causa do batuque, das danças e crenças. O terceiro aspecto é a desumanização pelo menosprezo – considerados selvagens, incivilizados, incapazes de produzir conhecimento, de se manifestar dentro dos 'padrões da civilização'. O resultado está na institucionalização do racismo.

Sergipano de Santa Rosa de Lima, onde nasceu em fevereiro de 1941, Roberto Teles de Oliveira, o Mestre Sombra, quando chegou em Santos, em 1962, trouxe também três características que o tornavam alvo do preconceito e das tentativas de silenciamento: negro, nordestino e capoeira, como diziam antigamente, marcando a 'capoeiragem' como ato de arruaceiro, vagabundo ou bandido.

"Até hoje, a capoeira sofre com muitos preconceitos. Vamos dizer assim: se você chega num órgão público e solicita alguma coisa para a capoeira, olha, é difícil. Nós somos os primeiros da nação e somos os últimos na fila para se ter alguma coisa. Entendeu? Isso é o quê? Ah, não, porque nós temos verbas para esportes de altos rendimentos, esporte olímpico. Ah, porque a capoeira não é Esporte, é Cultura. Você chega na Cultura, não é aqui. Então, você sofre esse joguete pra lá e pra cá. Só posso dizer que é o quê? Tem pessoa que diz assim: tá fazendo o que, capoeira? Ah, brincadeira! Então, a gente tem que ter a sensibilidade de perceber a sutileza das coisas como são jogadas. Então, você olha, você sorri e... sorri. Quando cheguei aqui, andei procurando espaço para treinar, dar aula de capoeira, eu falava: queria alugar isso aqui. Pra quê? Pra capoeira? Você tá brincando. Eu virava as costas e saía." (MESTRE SOMBRA, op.cit.)

Mestre Sombra trabalhou no cais e conta que lá também havia uma espécie de código secreto entre capoeiristas, uma espécie de proteção ao preconceito.

Como ocorreu com toda manifestação que viesse das negras e negros, a capoeira não escapou da perseguição. Mas 'não acusou o golpe'. Nas agitações promovidas pelas maltas de valongueiros e quarteleiros, nos anos 1850, lá estavam capoeiras, valentões e praticantes das pernadas e tiririca.

É preciso esclarecer que havia capoeira, pernada e tiririca: "a capoeira tem seu ritual próprio, que requer uma bateria, com um, dois ou três berimbaus, pandeiro, atabaque, reco-reco, agogô. Ou não. Seria um berimbau e dois pandeiros. Tem uma forma. E tem uma forma de entrar e tem corpo e vida própria. Já a vida da tiririca consiste em uma roda de samba, de batuqueiro. Pode ser uma caixa de engraxar sapato, pode ser um batuque de escola. Se forma e dois começam a sambar. São dois sambando, só que a qualquer momento eu posso te passar um rapa e te pôr no chão. Na tiririca. É a mesma pernada. Só difere de nome por região. Entendeu? É o mesmo batuque. Agora, tem aqueles mais truculentos, tem aqueles que, por questão criam uma norma naquele momento." (MESTRE SOMBRA, op.cit.)

Um pouco mais tarde, durante a Guerra do Paraguai (1865-1871), combatentes praticantes da capoeira eram valorizados nas frentes de combate pela agilidade e coragem. De volta a Santos, foram perseguidos e marginalizados.

Porém, logo passaram a ser fundamentais também nas ações abolicionistas, sobretudo na atuação junto aos caifazes de Antônio Bento.

Após a Abolição os capoeiristas tiveram muita ginga para resistir à formação da Guarda Negra, tentativa de abolicionistas, inclusive negros, de criar milícias de libertos para defender a manutenção da monarquia – José do Patrocínio era, em São Paulo, um dos entusiastas dessa ideia.

Enfim, estavam os 'capoeiras' bastante presentes no cotidiano da cidade, nos períodos colonial e imperial. Muitas vezes foram vistos como vadios e atacados com pedras, principalmente quando estavam com 'capoeiragem' nas ruas.

"A habilidade marcial de capoeiras e valentões, que há anos vinha sendo aproveitada pelas elites em conflitos políticos e militares, com seu ápice na Guerra do Paraguai, também foi cooptada pelos abolicionistas, na década de 1880. Praticantes do jogo-luta, navalhistas e negros destros na luta corporal passaram a ser identificados como caifazes ou quilombolas. Naturalmente, surgiram lideranças negras, respeitadas entre seus iguais e até pela elite branca em virtude da valentia que demonstravam nos eventuais conflitos. Se, no pós-abolição, alguns valentões conseguiram colher frutos dessa ascensão, como o líder do Quilombo do Jabaquara, Quintino de Lacerda, que se tornou vereador em Santos, as mudanças políticas, econômicas e sociais foram desfavoráveis à grande maioria desses indivíduos.” (CUNHA, 2013, p.348-349)

"Com o fim da escravidão, em 13 de maio de 1888, capoeiras e valentões vistos com desconfiança e temor por parte da sociedade paulista, como agentes do abolicionismo, enquanto caifazes, quilombolas ou simplesmente escravizados lutando por se libertar, passam a ser encarados com desconfiança redobrada, por questões políticas, econômicas e culturais." (CUNHA, op.cit. p.229)

Em O Negro na História de Santos, Muniz Jr. conta que o Monte Serrat foi palco, durante muito tempo, da diversão envolvendo 'negros batuqueiros' e praticantes das pernadas.

"As rodas de pernada aconteciam durante a festa consagrada à Padroeira da Cidade, principalmente o dia 8 de setembro, quando havia romaria no morro. E lá em cima, no 'terreiro Grande', os batuqueiros formavam suas 'rodas' martelando seus rústicos instrumentos e logo se ouviam os 'refrões' das batucadas. Enquanto isso, no meio da roda, os 'maiorais' mostravam muita ginga, meneios de corpo e vigor nos movimentos das pernas. Era um folguedo popular. O encontro era na base da banda ou pernada, da cabeçada, enfim, da vivacidade, agilidade e manha de cada um, quando os melhores pernas eram aclamados delirantemente. Os que levavam a pior batiam em retirada de forma hilariante, debaixo da gozação geral e tinham que aguardar até o ano seguinte para ir à forra, de acordo com o 'Código de Honra' da batucada." (MUNIZ JR., 2008, p.72-73)

Esse 'folguedo popular' acabou no final dos anos 1950, por pressão do clero e a repressão policial. Infelizmente, a perseguição policial não era novidade e vinha de muito antes, como mostra Pedro Figueiredo Alves da Cunha, em Capoeiras e valentões na História de São Paulo (1830-1930).

"Contudo, para muitos escravos ou mesmo negros livres pobres, servir em um corpo militar ou mesmo partir para a batalha poderia ser um caminho para atingir um nível acima do que ocupava dentro da sociedade. A farda trazia status e a experiência bélica abria brechas na hierarquia social." (CUNHA, op.cit. p.137)

Esse foi o caso do 'mulato' Eugênio Wansuit, ex-combatente na Guerra do Paraguai, capoeirista que, ao retornar da guerra, juntou-se a Quintino de Lacerda e aos caifazes de Antônio Bento. Esteve presente nas tarefas pela libertação de negros e negras e na resistência à formação da Guarda Negra em Santos e São Paulo.

Samba e gafieira

"Se você for falar de samba, começa com o Pai Felipe. Aí tem o Imperador do Samba, que foi o Dráuzio da Cruz. Daí, desses batuqueiros, é que vêm os bambas todos como Dráuzio, Daniel Feijoada, Nego Tião, esses negros todos, e as tias. Essas histórias – e tantas outras – não podem ser esquecidas." (MUNIZ JR., entrevista realizada em 05/08/2020)

Durante a entrevista, assim como no livro Panorama do Samba Santista, Muniz Jr. ressalta a importância de se manter a história do que chama de 'três escolas de raízes negras', a X-9, a Brasil e a Império do Samba. Todas elas nascidas no Macuco, pioneiras. Destaca, ainda, os anos entre 1940 e 1945, durante a II Guerra Mundial, que denomina anos de 'resistência'.

"Vale lembrar que nos tempos da 'resistência', os sambistas de maioria negra era marginalizados, chamados de 'malandros e desordeiros'. Tanto é que a Escola de Samba X-9 foi uma que sofreu o repúdio das autoridades. Segundo depoimento do Mestre Manezinho (Manuel de Souza), um dos fundadores da 'Pioneira', em meados da década de 40 do século passado ele se apresentou perante um delegado de polícia para pedir autorização e sair no Carnaval. E quando a autoridade perguntou o nome da escola e obteve resposta, retrucou de imediato: 'X-9 é o 'Império do Crime' e se vocês não se comportarem bem vai todo mundo para o xadrez!' Acontece que X-9 era a denominação de uma famosa revista policial da época que publicava as aventuras do Agente Secreto X-9 (um detetive).” (MUNIZ JR., 1976, p.75)

Outras escolas surgiram depois da guerra e, de acordo com Muniz Jr., 'crioulos e mestiços' eram a 'elite do samba'. Os negros também eram bambas nas gafieiras espalhadas por diversos clubes populares: Vaia Paulista (na rua General Câmara), Copacabana (Senador Feijó), Brasipés (Macuco), Som de Cristal e Elite (João Pessoa), e Vassourinha (Valongo).

"Apesar da baixa condição social, os frequentadores das gafieiras andavam elegantemente trajados, uma vez que existiam determinadas normas, que eram rigorosamente cumpridas pelos cavalheiros e damas de Ébano, de acordo com o Estatuto da Gafieira." (MUNIZ JR., op.cit. p.74)

A fase áurea das gafieiras durou até o início dos anos 1960, registra o pesquisador. É interessante notar que, mais de seis décadas depois do 'processo de modernização' da cidade e cerca de 80 anos depois da Abolição, esses locais de diversão ainda representavam espaços de segregação racial. As gafieiras surgiram em clubes populares porque os negros não podiam frequentar bailes da elite.

Ana Lanna afirma que a discriminação nos bailes e carnavais vem desde a segunda metade do século XIX, quando a elite passou a se divertir no Teatro do Largo da Coroação, mas não saía na rua com fantasia. Era uma estratégia para evitar os ataques dos 'foliões' do entrudo, uma brincadeira de origem portuguesa que consistia em jogar água, farinha, frutas e outros produtos nas pessoas que passavam na rua, em dias de Carnaval.

"Ao mesmo tempo que a cidade estava sendo saneada, embelezada e os cortiços sendo demolidos em nome de habitações higiênicas e moralizadas, ocorria também uma mudança nos códigos do carnaval. O que se pretendia era passar da festa da barbárie, que impediria o desenvolvimento do espírito dito civilizado, para o carnaval com pierrôs, arlequins, clubes carnavalescos organizados em desfiles pelas ruas e bulevares recentemente remodelados ou construídos, seja no centro, seja na região, cada vez mais nobre, das praias. Estas iam, aos poucos, se constituindo no lugar do bem viver desta cidade, que abandonava o centro e se isolava do porto. Uma festa da qual as famílias participassem e que tivesse espectadores passivos e ordeiros a admirar as belas fantasias e desfiles de corso. (...) Na música, passava-se do batuque selvagem para o samba ou, de preferência, para as marchinhas, mais civilizadas." (LANNA, 1996, p.132)

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Memory in Transit

Memory is not a still thing. It moves, it passes through people, it changes hands and stays alive.

Memória em Trânsito is an action-research project that documents, preserves and shares the histories and ways of life of Black, Indigenous, quilombola, riverside and peripheral communities in Brazil. It was created in 2013 by cultural producer and researcher Marina Pereira.

The method is collective and open: the people who lived the story decide how it will be told. Interviews, photography, film, cartography and digital fabrication turn research into work that returns to the territory it came from.

Its 2020–2021 edition, Black Memories, Narratives and Technologies of the Baixada Santista, was carried out with Instituto Procomum and Instituto Ibirapitanga, producing an exhibition, a portrait series, an interactive storytelling object, a three-episode podcast and a public map.

Never Navigated Seas

An exhibition built as a port for the memories, struggles and dreams a harbour city chose to erase.

Three Times

Three portraits of each participant, one for the past, one for the present, one for what is still to come.

Montsho Cena

A laser-cut and 3D-printed box that unfolds into a stage for stories of Black freedom struggles in 19th-century Santos.

Erased Memories

A film and podcast series on the memories erased by a city that called itself the land of freedom.